20080423

I


As luzes agora eram mais fracas. Ele agradeceu por isso, a dor penetrante na sua cabeça aumentava com as luzes. Toda aquela energia. Toda aquela agitação. Toda aquela sensação de bem-estar. E todas aquelas seringas, por que não? Elas foram uma dor que foi abstraída com o tempo. A euforia era maior. Era a melhor coisa. A melhor saída. Quem ligava pra se ele não tinha um pai? Quem ligava se a mãe dele não estava nunca em casa e mal lembrava o nome dele? Quem ligava se o irmão dizia que ele é uma vergonha e o chamava de bicha? Ele não ligava. Não quando ele escapava. Não ligava porque as coisas pareciam perder o sentido. Aquela sensação era tão... Perfeita. Era como se a vida dele ser um lixo não importasse, desde que as luzes coloridas e fortes (não tão fortes agora, aliás.) que brilhavam quando ele fugia disso tudo continuassem a deixar as coisas mais lentas e mais rápidas ao mesmo tempo. Era uma sensação única. Mudava tudo. Mudava até os pensamentos. Não que fosse um prazer simples. Era caro. Sem contar o quanto emagreceu, ficou com uma aparência abatida, e coisas assim. Quem ligaria pra aparência abatida? Sua mãe? Pelo amor de Deus, não era como se ela tivesse algum tempo pra isso. Mas o dinheiro era um pouco mais complicado. Umas três ou quatro vezes torceu para sua mãe não notar o dinheiro que andava sumindo. Mas o pior era que as luzes eram tão boas que ele queria vê-las sempre. E pior que o pior:
As luzes andavam diminuindo.
Cada vez que as via, ele estava mais fraco. Essa fraqueza se refletia nelas. E agora ele mal as enxergava. Na verdade, ele mal enxergava algo. Com um esforço enorme, foi até a porta e a trancou. Não, seu irmão não podia entrar. Não agora. As luzes estavam sumindo. O que ele faria se elas sumissem de vez? Ele ia viver sem elas? Ele CONSEGUIA viver sem elas? Agora não eram só as luzes. Agora eram os sentidos em geral que sumiam. A dificuldade de respirar. O que estava acontecendo? Tentou a sua última seringa. Uma última chance. Mas ele não exergava o bastante para ver onde colocá-la. E sua mão não estava firme o bastante para aplicar. E agora? Tudo ficava mais escuro, todos os sons haviam sumido. Ele não conseguia se levantar, só via borrões.
Mais dificuldade de respirar.
Mais dificuldade de respirar.
Mais dificuldade de respirar.
E a dificuldade de respirar sumiu. A de ver. A dor de cabeça. A fraqueza.
Sumiu junto com todo o resto.

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