20080423

III


Dali a uma semana seria a mudança. Ficar naquela casa era bom, mas ele se sentia mal com o que havia acontecido. Quem não se sentiria mal? Ela era sua mãe. Ok, ela já estava bem velha, e havia vivido bastante. Talvez tivesse sido melhor assim. Afinal, os últimos anos dela não tinham sido exatamente a melhor época de sua vida. Ele lembrava claramente, havia acabado de chegar das aulas de piano (diga-se de passagem, na opinião dele, o melhor trabalho que ele poderia ter conseguido, Não dava tanto dinheiro, mas era seu mundo mexer com todos aqueles pianos todo dia. E ensinar a tocar lembrava-o de quando ele próprio aprendeu.) e recebeu a notícia de que seu pai havia morrido. Não sofreu tanto quanto poderia, na verdade. Ele nunca foi bem um pai. Ele estava sempre viajando a trabalho, saindo de casa pra fazer coisas que ele nunca explicava, e sempre ocupado com aquela maldita imobiliária. Então eles nunca puderam fazer as "coisas de pai e filho" que deveriam ter colocado-o no seu papel de pai para chegar ao ponto de ele sofrer de verdade com a morte dele.
Mas a sua mãe sim, sofreu.
Ela havia dedicado a vida a fazer o que o pai dele não podia. Mesmo que ela tenha feito faculdade de design de interiores e sempre ter mostrado a vontade de ser designer dela (e certamente era por isso que ela estava sempre trocando coisas de lugar na casa e pintando coisas e falando que a casa precisava ser reformada.), nunca chegou a exercer. O marido (meio machista, até. Seu pai odiava o fato de que ele era professor de música. Não parecia bom o bastante para um homem de verdade. E o dia que contara o que seria no futuro foi um tanto problemático. Era fácil lembrar do escândalo que seu pai havia feito, quando quase o havia explusado de casa, até porque havia lhe deixado algumas marcas. Havia uma que, mesmo anos depois, ainda estava lá. Seu pai havia quebrado um bom número de coisas de vidro, cerâmica ou barro tentando acertá-lo. Uma delas hoje era uma marca leve no ombro. Pouco mais que um risco branco de uma cicatriz apagada.) sempre dizia que a partir do momento que eles eram casados a obrigação dela era cuidar do que ele não pudesse cuidar. Ele a sustentava, e ela fazia o resto. Mas ela sempre parecia até feliz ao fazer isso. Um sorriso fraco, mas um sorriso. Foi um tanto chocante na leitura do testamento, ler que ele havia deixado algumas coisas, mais especificamente 30% dos seus bens, pra uma tal Vivian R., que eles descobriram depois que era a amante dele fazia mais de 20 anos. Então sua mãe entrou em uma depressão violenta, tanto pela perda do marido quanto por ter notado que ela não era boa o bastante pra ele. Não pra ele querer só ela. Se o sorriso dela antes era apagado, agora ele era inexistente. Mais dolorido que ver ela triste, era ver que ela não demonstrava tristeza, e sim não demonstrava nada. Uma indiferença melancólica demais pra ser considerada raiva ou frieza. E ela não mudava mais nada de lugar. Ela mal mexia na casa. A limpava uma vez por semana, mas só. Era como se a casa tivesse perdido parte fundamental. Outra paixão que sempre tivera era a fotografia. Esperava que após a morte dele, sua mãe fosse ficar vendo fotos dele e chorando. Mas não. Ela não chorava ou via fotos. As fotos permaneceram anos intocadas. Até o dia que ela morreu. De forma bem calma, aliás. Dormiu numa cadeira de madeira, no jardim até um pouco mal-cuidado, que antes era impecavelmente arrumado todo dia e hoja não tinha mais esse brilho. Mas mesmo assim, ela ainda parecia gostar de ficar lá. Então ela, numa quarta-feira comum, sentou-se, dormiu e esqueceu de acordar. Ele não sabia se ficava triste, pela perda da mãe, a pessoa mais próxima que ele já teve, ou se ficava feliz porque a morte lenta e dolorosa dela havia acabado. Agora, era inevitável lembrar dela. Estava mexendo nos álbuns e se perguntando com quais deles ia ficar. Tinham alguns tão inúteis, com fotos e mais fotos de seu pai. Pensou em jogá-los fora. Eles lembravam de um passado não tão bom assim. Recordar, pra ele, nunca foi viver. Não tinha esse hábito. Lembrar das coisas despertava um lado um tanto quanto negativo nele, que lembrava das coisas que haviam sido ruins, e esse lado que foi despertado, despertava outras coisas, como raiva e tristeza. Se ele ficasse com esses álbuns, ele se sentiria mal pela mãe, e sentiria-se com raiva pelo pai. Tanto por si quanto por ela. Decidiu não separar álbum nenhum e jogá-los todos fora de uma vez. O quarto dela estava ainda com um ar habitado, faziam menos de 15 dias desde que ela havia morrido. Olhando pra cama, decidiu jogá-la fora. Poderia deixá-la lá pra quando fosse embora ficar pra quem comprasse, a casa era bem localizada, grande, bem feita. Ia ser um bom preço. E o preço valia mais do que qualquer lembrança. Só sentiria falta da sala onde ficava seu piano. Daria um jeito de levá-lo junto consigo. Não estava disposto a deixá-lo. Um lindo piano que era diariamente cuidado, preto, antigo, brilhante, a única coisa preta numa sala interiamente branca. Ele gostava desse contraste. E com uma grande janela ao lado, e uma estante que ocupava uma parede toda, que dividia lugar tanto com livros quanto com coisas. Era o lugar a que ele pertencia. Nunca se sentiu em casa em outros lugares da casa, só ali. Nem no seu quarto ele tivera durante a vida metade da paz que ele encontrava lá. A única pessoa, entre a empregada, a mãe, o pai, a avó e mais recentemente sua esposa que entrava ali, era sua mãe. Ela de vez enquando ia lá. O resto das pessoas passava longe daquele cômodo. Era o lugar DELE da casa, e ele fez questão de deixar isso claro. Se trancava lá enquanto estava e trancava-a quando saía. Sempre gostou da solidão. A solidão parecia protegê-lo das pessoas. As pessoas. Sempre tão irritantes. Nunca havia conseguido entender nenhuma delas. Ele não se sentia ignorante por isso, mas sim tinha mais certeza de que ele não havia sido criado pra contato constante com os outros. Era por isso que ele não falava muito e não tinha muitos amigos. As pessoas o aborreciam.
Acordou de seus pensamentos, e voltou a se concentrar no quarto. O armário. Era um bom armário. Sua esposa, Alicia, disse que queria ficar com ele. Seria útil. Ok. Pegou todas as roupas dentro dele, e sem olhar direito pra elas, jogou-as dentro de um saco. Havia uma caixa de jóias lá. Sua mãe tinha uns colares bem caros, pelo que podia lembrar. Ma também não queria dá-los ou vendê-los. Era egoísta com as lembranças, e queria que elas terminassem com ele, embora não quisesse vê-las nunca mais. Jogou dentro do saco também. Sua mulher havia prometido não opinar sobre o que ele fizesse com as coisas. Só havia pedido o armário e o jogo de cristais. Um jogo que ele teria jogado fora se ela não tivesse pedido. Assim como o faria com o armário. Mas tudo bem, ela pediu, não havia problema em deixar as coisas para eles levarem. Colocou o tapete, que estava lá desde que ele havia nascido, no saco também. Os criados-mudos iam ser jogados fora. A penteadeira. Tudo que esta continha, também estava sendo colocado em sacos. Talvez ele tivesse medo de lembrar daquelas coisas todas. Tudo bem. Não importava.

Arrastou os sacos pra fora do quarto.
Desligou a luz.
Trancou o quarto e pendurou a chave no gancho.

Esperava que essa fosse a última vez que tinha visto tudo aquilo. Realmente esperava.

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