Enquanto eu estou aqui, sentada no quarto, parece tudo tão mais claro. Apesar das luzes estarem apagadas, e eu estar escrevendo com a luz que a lua e a rua trazem, tudo parece mais claro que nos últimos tempos. Eu não esperava que toda essa "clareza" fosse tão estranha. Quanto mais claro, mais problemático tudo ficou. É como se a luz revelasse neblina. Eu deveria estar triste por tudo? Eu deveria estar ressentida? Eu não sei muito bem como eu estou, eu só sei que eu não estou bem. Sabe por que eu não estou bem? Porque eu não sei se tenho forças pra fazer o que eu preciso fazer. Eu sei o que eu preciso fazer. Não é a força, na verdade, é a coragem. Eu nunca fui corajosa. Eu sempre fui fraca. Você sabe, você me conhece há, hm, 11 anos agora em Junho, não é? Parece que foi ontem que eu tinha treze anos. Eu tinha treze anos e te conheci. Eu fingia negativismo e sonhos mais altos pra esconder uma natureza não tão sonhadora, mas que se prendia demais à realidade, e tinha medo dessa realidade. Então por que eu me prendia a ela? Eu não sei. Eu não era muito boa em sonhar. Mas você me mudou muito. Pelo menos, aparentemente.
Não foi uma mudaça imediata. Foram alguns anos, três, quatro anos, com apegação, e você se apegou a mim. Eu me apeguei a você. Eu já havia te dito que eu era uma pessoa cansativa; E como qualquer pessoa cansativa, eu me cansava fácil dos outros também. Você chegou a me perguntar se eu ia me cansar de você. Eu, como qualquer pessoa faria, respondi "não".
Eu queria que você não tivesse acreditado. Infelizmente, você levou seus sentimentos bem a sério. Eu tentei levar os meus também, mas, como eu já disse antes, eu sou cansativa.
Depois dos três ou quatro anos, você e eu tínhamos um modo diferente de nos tratar. Foi nessa época que você se mudou. Pra outro estado. Eu senti tanto sua falta. Quando eu fui ver você, acho que não foi só aquele "modo diferente de nos tratar" que influenciou no que aconteceu. Foi a saudade também. Porque todas as demontrações diárias de carinho de toda amizade supriam um tratamento que nós tínhamos, mas quando eu te vi tudo que eu queria era ficar perto de você. E acabamos nos tratando como bem mais que amigos. E a minha mãe não sabe até hoje que quando eu disse que ia dormir num hotel, eu na verdade não apareci lá e fui pra sua casa dormir com você. Quando você foi o tipo de garoto que toda garota quer e se preocupou com a nossa amizade, depois disso tudo, eu notei que eu tinha esquecido o quanto você era sentimental. Não, sentimental não. Você se levava a sério. Só isso. Como você fazia isso? É o tipo de coisa que você é muito bom e eu sempre quis ser também. É o tipo de coisa que me fazia admirar você e foi o tipo de coisa que me fez gostar de você. Depois de duas idas e vindas nas visitas que eu fazia a você, a cada três meses, eu voltei pra casa e falei pra minha melhor amiga (a Amanda. Lembra dela? Ela continua sendo minha melhor amiga. Acho que você sabe disso.) que nós estávamos namorando. Você foi o primeiro namorado que eu levei a sério. O primeiro que durou mais de um mês, também. E nós passamos anos nessas idas e vindas. Eu não podia sair daqui. Você não podia sair daí. Mas eu nunca tive aquele medo tão comum de ser traída, porque eu confiava muito em você. E por muito tempo, isso funcionou. Quando você vinha aqui, ou eu ia aí, era tudo tão legal, sabe? Eu me sentia feliz. Aí, depois de um tempo, quando eu ria com você, não era um sorriso tão feliz. O seu continuava feliz. Quando eu falava com você, não era mais com tanta vontade. Você continuava o mesmo. Quando eu estava com você não era com tanta saudade. Você, invariavelmente, continuava igual. Talvez todo esse sentimento que você parecia ter e que eu certamente não tinha tenha me feito cansar. Só talvez. Bom, eu sei que você deve estar aborrecido com isso, mas uma hora eu teria que te falar de tudo que aconteceu: Você provavelmente nesse momento odeia o Thiago mais que qualquer um. Ou não? Espero que não. Mas eu duvido. Não foi bem culpa dele. Foi minha. Se eu gostasse de você o tanto que você merecia, isso não teria acontecido. Eu lembro que você odeia ele desde sempre, e já chegou a dizer que ele ficava dando em cima de mim. Há um mês, quando você foi embora, depois do feriado, ele me convidou pra ir na casa dele e eu fui. Não era sem intenção. Na verdade, eu já sabia o que ia acontecer, eu acho. No fundo, acho que eu sabia. Ele começou a me contar que ele tinha certeza de que eu não gostava dele, que ele via isso há muito tempo em mim, e quando ele disse isso, eu notei que ele estava falando a verdade. O Thiago não foi nunca do tipo que mente pra conseguir as coisas. Ele é sério. Menos que você. Ele é sério em relação a coisas que você não é e você é sério em relação a coisas que ele não é. Mas nisso eu sabia que ele estava se levando a sério e eu sabia que era verdade. Então eu decidi parar de me enganar, porque aquilo não estava me fazendo feliz. E a minha felicidade, infelizmente, vem antes da sua, pra mim. Eu parei de fingir pra mim que eu era uma namorada fiel e apaixonada, pelo menos um momento. Você acabou descobrindo isso depois, não é? E você acabou ressentido principalmente pelo fato de eu não ter te contado. Eu ia te contar, embora seja meio difícil acreditar nisso (ou acreditar em mim, depois de tanta coisa!). E você me contou depois que ainda queria ficar comigo. Eu meio que senti pena de você. Porque você acreditou que eu, não, que VOCÊ ainda poderia me fazer gostar de você e fazer tudo voltar ao normal. Eu tentei. Você queria morar comigo, aqui. Ok. Você se mudou pra cá. Cada dia foi do tamanho de um mês. Foi tudo tão entediante. Eu notei que eu não conseguia gostar de você. Não como você queria. E eu comecei a me sentir presa por você e notei que eu não podia mais ficar aqui sendo a sua alegria. Talvez eu não me importe com você o bastante pra querer ser a sua alegria. Eu quero ser a minha, e acho qeu eu não vou encontrar ela por aqui.
E eu sei que você não gosta muito de coisas longas, anjo.
E eu sei que você não gosta muito que eu te chame assim. É a última vez.
P.S.: Desculpe por não pode dizer "eu te amo." e por não poder ter amado você.

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