20081212

X

Olhando-se no espelho, pensou em como havia se tornado aquele monstro. As pessoas da escola estavam certas, ela não passava de uma obesa. Nada além disso. Não era uma casca vazia, mas só porque essa tal casca estava cheia de gordura. Podia ver cada pedaço de si mesma, da cabeça aos pés, como uma grande almôndega. E provavelmente o mundo todo a via assim, já que o modo como eles a tratavam era como se ela fosse uma almôndega. Uma almôndega estragada. Uma coisa feia e ruim, que devia ser jogada no lixo, e não havia nenhum problema nisso, já que a tal coisa não sentiria nada. Era só um pedaço de carne. E era exatamente isso que faziam com ela. Jogavam-na no lixo, ao modo deles.
Não tinha amigos e não culpava ninguém por isso. Quando você anda com um monstro, você não somente anda com ele. Você se torna um, também. É como se um hipopótamo de 50 metros invadisse a linda cidade de Utopialândia, e algum cidadão qualquer decidisse que o bicho devia ser tratado com amor. O que o resto faria? O julgaria um maluco, um ser que devia ser expurgado antes que a febre que ele possuía infectasse o restante.
Mas ela se sentia amada, sim.
Por mais incrível que parecesse, ela era amada por algo. Mesmo que nem ela entendesse o porquê de esse algo gostar dela, ela era amada por algo e isso era um fato. Ela tinha um porquinho-da-índia, Fernando, e ele realmente não tinha medo de chegar perto dela. O que era praticamente inconcebível, porque, quer dizer, se ela fosse Fernando, ela teria muito medo. Porque aquela coisa poderia esmagá-lo a qualquer momento. Mas não, ele ficava perto dela e ela cuidava dele do melhor modo possível. Ele era a única coisa que ela tinha, e ela não queria desperdiçá-lo. Tratá-lo mal. Não, ela tratava-o o melhor impossível.
Havia acabado de chegar da escola, de mais um dia de humilhação – o pior dia da semana pra ela, quinta-feira, dia de educação física – e ainda não havia ido falar com Fernando. Saiu correndo para o quarto, com seus pesados passos maltratando o chão. Abriu a porta, e tomou um susto. A gaiola estava ali; Fernando não. Foi procurar a mãe imediatamente e perguntou-lhe o que havia acontecido com ele.
“Filha, eu gostaria que você pensasse assim: ele era bem velho, e viveu bem mais que um porquinho-da-índia normal. Então...” Interrompeu-a. Quis saber o que ela estava querendo dizer. “O que eu quero dizer é”, disse, “Fernando morreu, filha. Faz umas três horas. Se quiser, podemos ir comprar um novo amanhã mesmo.”. Não conseguiu responder. Virou-se, entrou no quarto e trancou a porta.
Agora ninguém mais a aceitaria. Ninguém mais a amaria. Ninguém mais apreciaria sua companhia e cuidados. Estava sozinha no mundo, e dessa vez, era definitivamente. Chorou sentada na cama por mais de uma hora, quando se virou para o lado. Um espelho. Mais um desses malditos. Viu aquela coisa bestial e vermelha, com feições distorcidas (mais até que o normal) pelo choro. Banhas saindo até de onde ela nem sabia que podia ter banhas. Sentiu-se mais feia que nunca. Feia. Gorda.
Gorda e sozinha.
Então, depois de alguns segundos se olhando, virou-se, destrancou a porta. Precisava comer alguma coisa. Ia comer pra esquecer, e pra ser mais gorda do que sozinha novamente.

20081112

IX

Sentado no sofá do hospital, ele olhava o rosto repousante da esposa. Com apenas 37 anos, já não haviam mais esperanças de que ela vencesse a doença que já havia a debilitado tanto que ela só passava o tempo deitada naquele hospital nojento, esperando por uma morte que, infelizmente, tardava em chegar. Não é que ele quisesse se ver livre da esposa, mas esse sofrimento dela era desnecessário pra ele, e torturante pra ela. Três vezes por semana (quarta, sábado e domingo), ele ficava lá com ela. No restante, quem ficava era a irmã dela, que estava de férias.

Ela passava o dia inteiro letárgica, devido aos remédios para amenizar sua dor. E dormia ao menos durante 15 horas. Não era um trabalho realmente difícil ficar lá, mas para um acompanhante de hospital, o mais difícil não é ficar, é aquele hospital que se fecha ao seu redor, como um tribunal que lhe acusa de todos os seus crimes contra o paciente. A sensação de que simples enfermeiras cuidam mais dela em uma semana que você jamais cuidou em quase 20 anos não é a mais agradável. Costumava culpar o trabalho. Chefe de finanças duma loja de porte médio/grande. Mas ali, naquele branco infindável do quarto 232, ele sabia. Não havia sido o trabalho, não adiantava mentir pra si mesmo. Bom... Ao menos não sempre. Quando olhava para trás e via aqueles momentos em que, mesmo sem sono, ele ficava deitado até meio-dia no domingo, só pra não sair do quarto e ter que cuidar da filha, ajudar a limpar a sala, preparar o almoço, depois sair e conversar com a mulher, como faziam quando eles tinham seus 18 anos, os dois recém-entrados na faculdade (a mesma faculdade, mas cursos diferentes. Ela fez Letras, queria ser professora de Português. E ele fez Contabilidade, queria ganhar dinheiro. Os dois, felizmente, conseguiram o que queriam.), e passavam o dia todo em algum lugar como uma sorveteria qualquer conversando sobre qualquer coisa que não teria a mínima relevância depois, como dois bons jovens. Mas, depois de uns anos de namoro, as coisas viraram mais passar o dia sem se ver e se encontrar depois pra ter alguma satisfação sexual. E claro, o presente de Dia dos Namorados. Às vezes ela o ligava querendo sair pra bater um papo. Ela, ele e mais uns amigos. Recusava, não estava interessado em sair agora. “Outro dia, sim?”. Estava tão ocupado virando um profissional em sua área, para virar um dia um homem rico e interessante, e talvez quem sabe ficar junto da garota que gostava dele desde antes, como toda boa estrela de qualquer área, que esqueceu que ela existia (esqueceu nas horas irrelevantes das conversas que não teriam importância depois, e que os tornaram amigos, mas continuava sendo namorado dela.) Às vezes via algum coisa que lhe lembrasse dos velhos tempos, e começava a pensar em como estava sendo negligente com ela. Então, eles saíam, falavam por duas horas sobre a vida (Ela conseguiu um emprego de professora de sexta série. Que ótimo.), ele dava um presente a ela, então ele a levava pra sua casa, e, na manhã seguinte, quando acordasse com uma das mãos abraçando o corpo desta, coberto apenas com um lençol, acharia que as coisas continuavam tão normais quanto sempre, e voltaria à grande carreira que um dia teria. Quando conseguiu seu primeiro emprego, como sub-gerente de finanças de uma pequena empresa, contou primeiro pra ela. Não podia estar sempre ali, mas ainda assim gostava muito da namorada. Então, quando foi promovido, três meses depois (as coisas estavam caminhando rápido!), pediu-a em casamento, o que esta aceitou prontamente, com direito a lágrimas e abraços e beijos. Não saíram em lua-de-mel “Porque, claro, ainda não dá pra pagar a lua-de-mel perfeita”. Mas prometeu que, daqui a um tempo, pagaria uma ótima, nada abaixo de Paris. E ela entendeu.

A tal lua-de-mel em Paris realmente veio. Mais ou menos um ano depois. Foi uma semana (“Entenda, eu não posso ficar tanto tempo assim fora do meu trabalho”.) de todo o dinheiro que ele pôde e quis gastar. Uma semana de tudo que ela quisesse fazer a respeito de compras, com direito a sexo uma vez por dia, quando se cansassem de tanto beber champagne e dizerem o quanto a cidade-luz brilhava mais a cada copo, “então vamos pedir mais um e vê-la resplandecer como nunca mais”. Ela voltou grávida, e ele, desesperado. Haviam gastado muito mais do que ele queria e podia (talvez as luzes tenham tornado todo aquele dinheiro mais fácil de gastar), e agora uma criança nasceria, e ele viveria debaixo da ponte de tantas contas a pagar. O dinheiro deu, e nasceu uma garotinha linda (“ela é a cara da mãe, e o cabelo tem o mesmo brilho negro-azulado do pai. Que coisa encantadora.”), que, durante um tempo (uns seis meses?), o tornou o mais próximo que jamais havia sido daqueles dias dos seus 18 anos, tendo contato com a esposa e a filha, como uma boa família feliz de comercial de margarina. Depois, ele arrumou outro emprego (por indicação de um antigo amigo de bebidas – o mesmo que o havia apresentado sua atual esposa.), numa firma bem maior e um salário uns quinhentos reais abaixo do seu atual (“nem tudo é perfeito, e vamos ter que viver sem aquele dinheiro”.). Desde então não mudou mais de emprego, e se empenhou ao máximo para melhorar cada vez mais em seu emprego. Ele era bem rápido, e logo logo havia crescido em duas posições na empresa, e logo logo, sua filha estava na escola, e logo logo, sua esposa estava grávida de novo.

Sua vida é perfeita”, diziam seus colegas de trabalho. Também achava. Claro, a falsa humildade e a educação o obrigavam a minimizar a coisa toda, mas achava sua vida uma perfeição enorme. Havia agora chegado, em menos de seis meses desde então, a mais uma promoção (a última. Cargo máximo em sua área, na empresa. Um salário invejável, deve-se acrescentar.). E sua filha agora já estava aprendendo as vogais, e sua esposa estava com dificuldades na gravidez. Foi hospitalizada (a primeira de muitas vezes a partir de então) em outubro, com sete meses, por graves dores. Acharam que podia ser o bebê. Não era. Os médicos declararam que, quem sabe, talvez fosse melhor não ter o bebê. Ela poderia morrer, e ele também. Ela preferiu ter (“sempre fui insistente. Não comece a reclamar depois de tantos anos.”). Ainda com sete meses de gestação, sentiu dores mais uma vez, e foi internada novamente. Agora, iria ao hospital uma vez por semana para garantir que estava tudo certo. Sua filha agora havia terminado o primeiro ano da pré-escola. Demitiu um funcionário pela primeira vez (e de certo modo a sensação era boa). Agora tinha pode pra fazer isso. Oito meses de gestação, e sua mulher passou uma semana e cinco dias no hospital (“tudo isso vai valer a pena quando ela nascer, você verá. Ela chuta tanto que às vezes eu queria que ela não chutasse”). Sua filha estava indo muito bem na escola e lia palavras simples com perfeição (“Talvez ela vá gostar de ler tanto quanto você gosta, querida. Talvez ela seja parecida em personalidade também.”).

Foi acordado de seus próprios pensamentos por uma enfermeira que entrou no quarto querendo aplicar um remédio. Aproveitou e saiu. Foi para a área aberta do hospital. E várias pessoas passavam nos corredores, enquanto ele percorria seu caminho. Umas preocupadas, outras andando normalmente. Umas felizes, umas enfaixadas, umas que eram impossíveis de se definir o que elas estava sentindo ou pensando. Umas de cadeira de rodas, uma ou outra chorando num canto. E quando finalmente chegou (era um lugar tão branco quanto o resto do hospital. Com um grande chafariz no meio, e umas poucas plantas perto de árvores. Um lugar totalmente frio que tentava dar uma falsa impressão de calma e tranquilidade, quando, a uns passos de distância, havia pessoas morrendo, chorando, sofrendo em silêncio. Sentou e ignorou isso.), acendeu um cigarro e se lembrou de todas as outras vezes que havia vindo ao hospital. Na primeira, chorou, se desesperou, com a idéia de perder a esposa. Na segunda, ficou apenas sentado, calado. Na segunda e terceira também (e na quarta falou de negócios ao telefones e despediu uma pessoa, quando deveria estar lá com ela, lhe dizia uma vozinha fraca na cabeça.). Depois disso não lembrava de mais nada que havia feito nas últimas vezes. Já havia duas semanas que ela estava lá. E mais ou menos três que ela estava à beira da morte. Os outros dias havia passado em casa, os pais tentando explicar à filha o que estava acontecendo com mamãe e que ela podia não voltar. Que seria melhor pra mamãe que fosse assim. E que mamãe a amava muito e estaria com ela quando fosse. Certas vezes (acabara de acender mais um cigarro), a porta do quarto entreaberta o fez ver a esposa chorando. Mas alguma falta de coragem aparecia nele para ir lá falar com ela. Talvez por não saber o que dizer (ou talvez porque haviam se tornado estranhos um para o outro). A filha recém-nascida não era muito parecida com ela nem com ele. Era mais uma mistura dos dois. A esposa não podia cuidar dela, pois, após o parto delicado, sua saúde havia piorado ainda mais. Não conseguia dar leite, e não tinha tanta energia pra cuidar de uma criança. Tiveram que chamar uma babá. Problemas na empresa fizeram-no impossibilitado de ficar tão junto delas quanto havia ficado no nascimento da primeira filha, mas voltava pra casa todo dia mais cedo (porque havia parado de sair com os amigos pra beber depois do turno depois de finalmente notar um pouco que tinha uma esposa que precisava dele). Quando desmaiou e foi para o hospital, não saiu mais de lá. Tanto ele quanto ela sabiam que era lá o último lugar onde ela ficaria. Que estava fraca demais para conseguir superar.

Quando deu por si, o segundo cigarro já havia acabado. Voltou para o quarto, e ela estava acordando. Sentou-se novamente. “Acho que não passa de hoje,”, disse ela, “e queria que você ficasse aqui. Até... você sabe.”. “Ficarei.”, disse ele. “Obrigada. Significa muito pra mim.”. Ela não olhava para ele enquanto falava, mas para o lençol demasiadamente branco. E ele teve a ligeira impressão de que ela estava tentando não chorar. A impressão foi satisfeita quando ele, olhando também para o lençol, viu algumas gotas caírem. “Sinto muito”, disse ela. “Não gostaria de parecer assim fraca.”. “Você não é fraca”, respondeu ele, “Você aguentou isso tudo como pôde, e eu diria que o fez muito bem.”. “Queria ter podido mais que isso. Queria ver as meninas crescerem.”. Então ele a abraçou. Provavelmente não a abraçava de um modo mais amigo e confortante fazia muitos anos. “De certa forma,”, disse, ainda a abraçando, “você verá.”. “Acho que sim.”, respondeu ela, o abraçando o mais forte que podia (o que, nesse estado, não era muito). “Foram bons momentos, os que nós tivemos. Desde sempre. De vez em quando eu quis que você estivesse ali mais vezes, mas aí eu via o quanto isso era egoísta, que você estava ocupado cuidando de mim. Obrigada por ter feito isso. Eu não queria te dar esse trabalho todo”. De repente, se sentiu mais pesado que nunca. Ela tomara sua negligência como cuidado. E, pela paz da alma da companheira, não queria que ela perdesse essa imagem, embora tal imagem o tivesse feito se sentir um monstro. “Não deu trabalho.”, foi tudo que conseguiu falar. “Eu te amo”, disse ela. “Eu também.”, disse, mais sinceramente que havia dito em vários anos, mesmo que houvesse dito isso sempre, mecanicamente.

Ela realmente não passou daquele dia. Morreu mais ou menos quatro horas depois, dormindo. Quis se desculpar por tudo, mas preferiu que ela tivesse morrido inocente, sem a verdade que ele, naquele momento, via como suja, de si mesmo. Como namorado, como noivo, marido, mas principalmente como amigo. Decidiu não viver pensando num perdão que obviamente nunca viria. Viver em paz. Ao menos havia notado o que tinha feito, mesmo que fosse tarde demais. E, no dia seguinte, ele ia ter que chegar em casa e encarar aquela encantadora cópia de sua esposa, e talvez pudesse recomeçar. Seria melhor. Enquanto as enfermeiras chamavam o pessoal para retirá-la daquele quarto, ele deu-lhe um beijo, e colocou os lençóis por cima dela. Foi para o corredor, e acendeu mais um cigarro.

20080518

VIII


Estava na sala da casa dele. Quantas vezes já não havia estado lá? Mas dessa vez, provavelmente, era a última vez. O que ela ia fazer lá depois de ele não estar mais lá? Eles eram melhores amigos há tanto tempo, e ela, de repente, não tinha mais ele ao seu lado. Nessas horas ele estarai lá, não pra falar que ia passar, não para falar que não adiantaria nada ficar triste, mas para ficar parado ao lado dela, imóvel, em silêncio. Exatamente como ela estava fazendo. Por quê? Porque ele sabia que falar algo assim não adiantaria, e que era o melhor deixá-la em silêncio um pouco, mas, que mesmo assim, ela precisaria que ele estivesse lá com ela só por estar e por ele matar toda aquela sensação de vazio que ela tinha naquele momento. Ele saberia. Mas se ele pudesse fazer isso, ele não precisaria, porque ela não estaria ali se sentindo mais vazia do que ela já havia se sentido durante toda a vida. Não é como se não precisasse seguir em frente. O negócio é que "seguir em frente" foi sempre algo que ela havia feito apoiada nele. Não se sentia como se quisesse continuar. Não se isso significava que ela precisaria ir sem ele.

Nunca foi do tipo de pensa coisas como "Por que alguém tão bom como ele?", como estava sendo o pensamento de outras pessoas, mas estava pensando em por que essa falta que parecia estar dentro dela não sumia de uma vez. Sumia com ele, sumia sozinha, não importava, simplesmente sumisse e acabou. A idéia de não poder mais passar tempo com ele doía.
A última conversa deles havia sido a habitual. O engraçado era que, por mais habituais que elas fossem, eram necessárias, e não eram, de forma alguma, repetitivas.
Havia sido a última vez.
Como se nada fosse acontecer depois.
Ele simplesmente disse "Até amanhã." e foi embora. Amanhã. Quando vai chegar amanhã? "Sempre teremos o amanhã", não é? Pois bem, ela queria o amanhã dela que nunca mais ia vir.

Eles se conheciam há uns dez anos e tudo que ela sabia é que, por mais exagerado que isso parecesse, a vida dela havia recomeçado quando ele apareceu porque ele fez parte da vida dela de forma tão intensa que não chegfava a ser mais uma parte, simplesmente. Era uma vida nova a que ela levava. Com um novo ritmo, e liberdade para certas coisas que ela não havia mais ninguém para ter. Para coisas fundamentais, que a faziam se sentir mais livre. Libertar um lado que mudou a vida dela. Esse lado era o que fazia ele ainda meio que estar vivo. Era um lado que viveu por causa dele, e isso não ia acabar porque ele não estava mais lá.
Certos sofrimentos podem ser evitados. Ter uma necessidade profunda de alguém era algo que, obviamente, se enquadrava no que podia ser evitado. Mas essa proximidade pode fazer tão bem que nenhum sofrimento posterior tira a felicidade de, pela primeira vez, se sentir mais viva só porque alguém está ali com você. Isso não diminui a dor, mas a compensa.
Agora, estava deitada no sofá. Não era estar na casa dele que a fazia sentir como se ele ainda pudesse cumprir o "Até amanhã", mas era estar buscando certa força na idéia de que eles já estiveram ali e que o papel dele havia sido cumprido. Até o último momento, ele havia modificado a vida dela de forma única, que a faria seguir de forma totalmente diferente. Mesmo que sem ele. Ela não chorava, mas não era porque ela estava "tentando ser forte".

É porque foi necessário perder e seria muito pior não ter tido.

Se virou e olhou pro relógio. Faziam duas horas que ela estava lá e já eram três da manhã. Virou pro lado e dormiu. O seu amanhã começaria quando acordasse, de forma que ela pudesse fazer valer a pena todas as mudanças que ele havia feito.

20080517

VII


Quando pegou a sexta xícara de café, notou que já havia escrito aproximadamente oitenta páginas. Estava sendo produtivo. Sentada na frente de um computador, parecia que nada poderia deixá-la mais compenetrada do que escrever. Escrever, escrever, escrever. Só isso. Aquele ia ser seu terceiro livro naquele ano, e estavam apenas em Julho. Quer dizer, seu terceiro best-seller. Ela não se surpreendia mais com os títulos de best-sellers vindo rápido. Era costumeiro. Ela era considerada uma escritora em seu ápice, com carreira internacional. Seus livros eram cheios de vidas não tão perfeitas assim, mas que no final sempre soavam melhores do que o mundo podia permitir. Não que ela não tivesse uma vida muito assim. Uma escritora de MUITO sucesso. Casada com um diretor de teatro muito reconhecido (e um marido ótimo), e com uma filha absolutamente perfeita. Diziam (porque como um casal consideravelmente na mídia, sempre existem as opiniões populares sobre sua vida, em todos os ângulos. O preço a se pagar.) ter puxado o melhor lado de cada um dos dois(e, de fato, ela parecia um anjinho, com o tosto rosado e fino, e o cabelo castanho avermelhado e os olhos azuis. Ainda que tivesse sete anos, a beleza já era bem visível.), e uma casa enorme num bairro de casas caras. A casa dos sonhos de qualquer um. Ela trabalhava quando queria, tendo considerável liberdade sobre suas atitutes quanto ao horário. Parecia a vida perfeita, e ela, de fato, ouvia isso sempre.
Os livros que ela escrevia sempre contavam histórias de pessoas que depois de certas coisas que aconteciam errado, conheciam alguém que fazia tudo melhorar. O tal amor verdadeiro, como dizem. No final, mesmo com os seus defeitos de enfeite, a vida deles parecia linda e emocionante.
Esse tipo de livro sempre fazia um sucesso incrível.
Ela sabia bem o porquê. As mesmas pessoas que a falavam com tanta felicidade o quanto sua vida era perfeita eram as pessoas que esbanjavam a infelicidade com as próprias, e pareciam se confortar com ler livros que tudo ficava bem no fim. Parecia que isso, quem sabe, fosse acontecer um dia com elas também.
Aquela esperança inútil em coisas surreais era tão popular e vendia tão bem.

Isso de certa forma era bem comum e ela sabia disso, e se sentia até meio culpada pela sua vida, sendo tão perfeita assim, de acordo com os outros, lhe parecer tão tediosa. Odiava seus livros e não os lia de forma alguma. Sua forma de escrever a enojava. Aquele lindo dia com uma filha que sempre estava rindo e um marido que faria de tudo por ela e não cansava de dizer o quando a amavam eram chatos. Ela, às vezes, tinha a impressão que se prendia a tudo isso por medo. Medo de cair na nuvenzinha branca e o chão ser duro demais pra ela. Então, ela ainda vivia sua vida perfeita.
Olhou seu novo romance. Era sobre uma mulher que, com seus 26 anos, recém-saída do Egito, estava agora no Canadá e trabalhava como vendedora de sapatos, e conhecia um banqueiro que parecia fazer o impossível, que era olhar pra alguém como ela.

Talvez fosse o café. O fato é que alguma coisa naquele texto a soou tão... Quer dizer, tão...
Tão...
Tão o quê?
"Bom,", pensou. E não pensou mais nada; selecionou tudo e apertou Backspace. E começou a escrever. Escrever o quê, nem ela sabia. Ela deixava tudo com os dedos, que saíam no teclado sozinhos, e rápidos. Até mais que o normal. E teve a impressão que esse, talvez, não fosse ser um best-seller, mas provavelmente seria o único livro seu que voltaria a ler.

E continuou escrevendo. Sem nem notar que não tinha mais café.

20080515

VI


Sentado na frente de um monitor de um notebook em uma cama, tentava relaxar jogando um jogo de Paciência. Não era bem o seu jeito jogar cartas, mas na verdade nada do que andava fazendo mesmo fazia muito sentido então não era algo a se importar. Com um CD do Counting Crows, era um pouco mais simples relaxar. Tudo parecia tão alterado desde que havia voltado para sua cinematográfica família cheia de problemas. No momento, a casa estava num silêncio mortal. Quebrado apenas pelo barulho exterior de umas crianças ali perto brincando de pique-esconde. Já estava escuro, e, fora as crianças, não havia um barulho em toda a rua. Provavelmente eram as filhas do vizinho duas casas pra esquerda, e, como já eram quase nove horas, provavelmente já já elas voltariam pra casa e a rua se prenderia de vez ao silêncio. Parecia tudo tão organizado há um tempo, era o único pensamento que entrava na cabeça dele entre uma música e outra. Nunca foram a família do ano. Verdade. Sua mãe sempre fora meio depressiva. Seu pai, sempre a deixando pior, tanto com atitudes como palavras. (Ou palavras que funcionavam quase que como atitudes.) A irmã, desde os treze anos, andava com um grupo de viciados nas mais diversas drogas, e o pai colocava a culpa no teatro, pois, "coisa assim só poderia dar numa sapatão que anda com um bando de cheirado infeliz". Nunca entendeu bem o ódio que ele tinha da família e inclusive dele também, sempre falando o quanto deixava a vida passar sendo um inútil, e que não viveria um dia fora daquela casa. Talvez, só talvez, o pai estivesse tão insatisfeito quanto eles. E não descontava isso em choro e remédios, como a esposa, ou em drogas e tentativas constantes de suicídio, como a filha. A casa sempre tinha um ar meio pesado (meio?), e durante muito tempo, eles meio que se aturaram. Saiu. Foi estudar. Quando voltou, numas férias, um ano depois, descobriu que a "sapatão viciada" da sua irmã havia tido dois meses antes uma briga com o pai, porque ela havia de fato consumido um bocado de cocaína e foi pro hospital. Pelo que ouviu, várias coisas como "vagabunda", "sapatão filha da puta", e "anormal depressiva" foram ouvidas do lado de fora da casa, até que a dita saiu da casa, bem machucada, pegou o carro e saiu arrancando com ele pela rua. O que foi feito dela, ninguém sabe, por ali. Algo, naquele "instinto de irmão", o dizia que ela estava realmente enfraquecida por causa das depressões e das drogas. A idéia de que a irmã tinha morrido sozinha Deus sabe onde o deixava mal, mas o tal instinto não o indicava outra coisa. Talvez ela já soubesse disso. Havia um olhar estranho no rosto dela quando ela saiu. Era o olhar dela vazio, quando ela sentia que mais nada prestava. Ele conhecia isso. No geral isso vinha seguido de tentativas de suicídio.


A mãe, depois de tanta coisa com o pai, estava cada dia mais e mais cansada. Talvez ela aguentasse aquilo pelo bem de uma família que ela insistia em tentar mostrar pra si (porque para os outros, isso já era bem tarde.) que não havía ruído, quando nem as ruínas restavam mais. mas agora, ela não estava mais cansada do pai. Não havia como estar. Ele, quando voltou, não viu mais o pai lá. Não recebeu uma justificação, como da irmã, mas sim um silêncio que ainda não havia sido quebrado. Quem sabe, ele nunca fosse saber o que houve com ele. Quem sabe, a mãe podia lhe contar. Duvidava. Mas sabe, não importava. A casa sem o pai e a irmã era outro ambiente. Mas não importava justamente por isso. Porque ele tinha plena consciência de que havia crescido num lugar que, quando mais distante, melhor. Agora eram só ele e a mãe. O que era praticamente só ele. Porque ela, como estava cansada, não falava mais muito e costumava se resumir a seu quarto. (Hm, não que ela não fosse meio assim antes. Meio.) A última conversa que eles haviam tido tinha sido em Dezembro (preferiu ficar por lá pra cuidar da mãe.), quando ela lhe perguntou dos estudos. De resto, nada. Era uma casa morta. Como de costume.


Olhou para o relógio, eram 00:32. A mãe tomava o remédio 00:30. Desceu da cama e foi em direção ao quarto dela. Só mais uma rotina.

20080502

V


Sentado no escritório, uma lâmpada fraca acesa e papéis na mão. Os lucros da empresa. A empresa ao qual ele chefiava. Outro ótimo mês e a empresa só fazia crescer. Mais e mais cada vez. Lembrou da euforia de primeiro momento quando isso tudo começou. Todos os investimentos, tudo que eletinha feito pela empresa. Tudo muito bem. Uma das maiores seguradoras do estado. Muito bom. Muito bom mesmo. Deu um sorriso fraco. Se sentiu tão ingrato. Quer dizer, a maioria das pessoas já se diria satisfeita em ter um pouco daquela quantia astonômica que aparecia no lucro (já descontados os gastos) que ele tivera e... Não parecia isso tudo. Não o dinheiro, mas a felicidade.
Faltava algo. O que era? Ele tinha uma família, uma família dos sonhos. Uma filha que era linda, que tinha um namorado com uma boa família, que estudava na mesma faculdade que ela e ia ser médico, e ela ia ser uma engenheira, dois filhos gêmeos que eram, apesar de hiperativos, bem obedientes, e bastante apegados à família, e claro, ele havia escolhido a esposa perfeita. A que cuidava de tudo em casa sorrindo. A que não se importava com ficar com as crianças enquanto ele ia trabalhar. A que não ficava reclamando. A que sempre estava ali, pronta ao que fosse. E quando haviam problemas, pronta para tentar consolá-lo. A que cuidava dele todo dia com a energia do primeiro. Uma casa absolutamente perfeita, linda, num lugar cobiçado. A rotina não tinha surpresas. Era tudo sistemático. Ele acordava, se arrumava para o trabalho (com a roupa já separada pela empregada, sem uma dobra fora do lugar.), tomava o café que já estava posto pela mulher. A beijava, e ia para o trabalho. Quando voltava, aproximadamente onze e meia da noite, sua mulher colocava-lhe o jantar, e depois disso, ele ia tomar um banho e depois eles viam um pouco de tevê antes de se deitarem. Caso estivesse um pouco estressado, sua mulher sempre cuidava disso. Ela parecia saber quando ele precisava dela. E saber sempre para quê. Para sua quebra de rotina, tinha sua secretária, Rosa, que sempre almoçava com ele e eles iam juntos para um motel caro meio longe dali. Nunca ninguém notava. Os que notavam, se os havia, não falavam nada. Era a parte "interessante" do dia. Mais interessante pra ela do que pra ele, já que também acabou virando uma coisa sistematizada. Tudo corria muito bem. Perfeitamente bem. Mas o que faltava? O que poderia ser essa maldita coisa que fazia parecer que tudo era tão vago? Simples demais. Sem graça demais. Nulo demais. Chato demais.
Não era nada de importante.
Nada daquilo?
Sua esposa? Seus filhos? Sua empresa? A casa? A secretária? O respeito? O dinheiro? A maldita vida perfeita do qual todo dia acabavam falando para ele? Não, nada disso era bom. Não era o que ele precisava. Não era TUDO que ele precisava. Girou na cadeira. Não haiva mais ninguém trabalhando, só os faxineiros, que não iam falar nada. Só limpariam a sala dele amanhã de manhã, então, sem temer escândalos, jogou um peso de papel contra a janela que ficava atrás de sua mesa. Ele estilhaçou boa parte do vidro e foi em direção à rua, tão pequena, dali de cima. Nem parecia o centro. Precisava achar a resposta. Precisava achar uma forma de ter tudo que era necessário. Levantou-se de um impulso da cadeira e foi andar pelo escritório. Foi até uma gaveta na estante. Papéis, papéis, canetas, lembretes, uma gravata (o que isso está fazendo aqui?), ah. Uma caixa. Abriu-a. Um pote. Calmantes. Pegou-os e foi até o bebedouro da sua sala. Tomou cinco de uma vez, não queria ficar muito tempo de pé. Foi até sua cadeira de novo. Sentou-se e virou pra janela. Estava estressado. Não queria, como das outras vezes, ir pra sua casa, jantar, tomar um banho e transar com a sua tal mulher perfeita. Ok, ela não era tão perfeita assim. Ele sabia que ela o traía com um maldito vendedor que tinha uma loja ao lado e que os gêmeoszinhos lá que não paravam de pular por aí, gritar, quebrar coisas, eram dele. Fodam-se eles. Não que eles já não o fizessem, haha. Deu uma risada meio irônica, alta demais pra parecer normal. Sentiu o vento que vinha da parte quebrada da janela. Que vento maravilhoso. Parecia bom demais, aquele vento. Frio. Maravilha. Nem se preocupou em colocar o copo na mesa. Largou-o, ele caiu no chão. Não estava mais nem aí. Adormeceu nem ao menos notar.

20080423

IV

Era uma sala com a parede num tom branco meio azulado, o chão de tacos de madeira (um ou outro solto, pela falta de reformas), uma única janela grande de vidro com insufilm que estava sempre fechada (ela gostava de observar o mundo sem ser observada.), e muitas telas. Telas, tinta, chão sujo de tinta, pincéis. Marcas da única coisa que a prendia a atenção. A vida dela foi concentrada naquelas quatro paredes, já que vivia naquele mesmo apartamento desde que havia nascido, há exatamente 29 anos atrás. Era bom viver lá. Nunca chegou a ter muito contato com os vizinhos, porque nunca foi chegada a fazer contato com todos que visse por aí. Mas era um lugar calmo. E desde que ela tivesse a sua sala, nem precisaria ser um lugar tão calmo assim. A calma parecia vir quando ela mexia a tinta, quando molhava o pincel nela, quando ele tocava a tela e fazia coisas não planejadas, mas que vinham de dentro dela. Ela gostava de pintar com azul. Não é bem que ela gostasse. É que a mão dela se direcionava sozinha para o azul. E ela não lutava contra isso, ela só pegava o azul e é isso aí. As pinturas com bastante azul eram sempre suas melhores. Por sua vez, as piores, eram as com amarelo. Amarelo não era bem a sua cor, apesar de ser loira. Amarelo pra ela transmitia uma energia que ela não tinha. Não é que ela fosse infeliz. O tipo de felicidade que ela tinha era apenas diferente do tipo comum de felicidade. A felicidade dela era pegar uma garrafa de água mineral, vestir uma roupa confortável, e ir pra sua sala. Não sentia toda aquela alegria pra sair com amigos. A alegria daquela coisa de estar junto, claro, como qualquer outra pessoa, sempre poderia existir. Mas a alegria de estar pintando era diferente. Era se como a tinta expressasse sua natureza. Sua alma. Coisas que ela não entendia. Que ela não queria entender. Ela só queria sentir. Seus amigos passaram o dia perguntando a ela por que ela não queria fazer nada no seu próprio aniversário.
Na verdade, ela já tinha tudo planejado, mas não envolvia eles.
Havia comprado três garrafas bem grandes de água. Uma tela grande, também. Todas as suas tintas posicionadas nos lugares que preferiu. Muito azul. Todas as suas tonalidades de azul. E principalmente, o azul DELA. Era um tom meio escuro de azul. Meio acinzentado. Mas não era triste. Era um tom muito bonito, na verdade. 31 de Dezembro. Ano-novo e seu aniversário. Eram exatamente 17:32. Tudo preparado? Que começasse a festa.
Jogou tinta amarela primeiro. Poderia parecer estranho a princípio. Amarelo? No seu aniversário? Não, não estaria certo. Mas ela queria usá-lo. Queria cobri-lo com azul. Seria quase como demonstrar a superioridade da "alma" dela sobre as coisas que ela não aceitava. Se sentiu bem fazendo isso. Em pouco tempo, tinha uma tela toda amarela. Agora eram 17:48. Branco. É, branco. Colocou branco em algumas partes. Sempre antes do azul, acabava colocando um pouco de branco. Era como se, sendo a segunda cor favorita dela, abrisse espaço pro azul. Mas ainda não era hora do azul. Tinha todo um cuidado especial com o branco, o que fez demorar bem mais pra aplicá-lo, embora fosse menos branco. 18:20. Ela não olhava pro relógio. A única coisa pro qual ela olhava era a tela. A tinta. A janela e a água, eventualmente. Quando entrava naquela sala era como se uma nova pessoa surgisse. Um lado bem mais real dela. Não que ela fosse falsa fora dali, mas ela não podia ser inteiramente ela. Já na sala, ela se integrava a tudo ali e se sentia completa. Todos os seus sentimentos achavam uma válvula de escape através de pincéis. Apesar de toda aquela felicidade, ela não sorria muito na sala. Sorria bastante fora dela, mas lá, ela não precisava demonstrar quando estivesse alegre. Ninguém precisava ver essa alegria. A concentração impecável já era a demonstração da alegria. Parou pra beber bastante água e decidiu ir pra janela. Tanto clima de Ano-novo. Ainda haviam luzes de natal em várias casas, pessoas vestidas de branco na rua, a praia, lotada. Essa era uma das graças de se morar perto do mar carioca. Muita gente. Muita história. Não gostava de proximidade DEMAIS com essa gente, mas gostava de vê-los e tentar imaginar suas vidas. Era tão terapêutico. Contou mais de 160 pessoas com camisas brancas e se cansou de contar. Olhou pra si mesma e riu. Estava com jeans e uma camisa preta.
20:17.
Voltou pras suas tintas e, instintivamente, pegou o azul. O seu azul. "Não. Agora não.", pensou ela. Pegou um azul BEM claro, que quase se misturava com branco, e decidiu misturá-lo com verde. Verde vivo. Deu num tom bem claro de verde. Verde-bebê. Colocou-o em cima de algumas partes, perto do branco. Deu um toque bem bonitinho. Mas ainda havia muito amarelo. Isso ia ser resolvido logo. 20:28. Azul piscina. Deu umas pinceladas na tinta e a jogou de modo aleatório do quadro. Queria algo bem solto pra começar. 20:35. Foi ao banheiro e depois ficou um tempo vendo o quadro. Iria colocar o SEU azul agora. Ficou um longo tempo decidindo o pincel. Tudo estava tão bom até agora, nada poderia estragar isso. Tomou mais um pouco de água. Pegou o seu mais velho, que ela tinha há oito anos. Cheio de manchas no cabo, este estava descascado, mas as cerdas ainda estavam impecáveis. Ok, talvez meio machadas por tintas um pouco mais fortes, mas ainda estava macio e pintava muito bem. Ela o guardava como a coisa mais importante e não o usava à toa. 22:10. Suspirou. Abriu o pote com O azul. O pincel era bem delicado e fino, então ia ser um trabalho delicado e fino, também. Agora mal se via o amarelo. Só umas duas ou três manchas remanescentes. Passou o pincel pensando em tudo que estava acontecendo. Em tudo que seu dia a privava de pensar. Nem via a direção que ele ia. Ele só... Ia. Agora o barulho dos fogos era constante. O que eles festejavam? Ela mal lembrava. Tinha sua própria festa a pensar. Era como se o stress de um ano estivesse sumindo pouco a pouco. Secando com o azul. Era tão bom. Era uma sensação tão limpa. Era gritar os problemas sem ao menos abrir a boca. E depois que esses problemas eram gritados, eles sumiam. Eram momentos que não tinham tempo. Não eram longos. Não eram curtos. Só eram.
Então, do nada, largou o pincel. É. Tinha acabado. Sorriu, quando olhou pro quadro. Guardou as tintas. Bebeu os últimos goles da segunda garrafa de água e usou a terceira para limpar os pincéis. Colocou num canto a tela e a olhou mais uma vez. Perfeito. Então, de repente, fogos. Muitos fogos. Olhou o relógio. Meia-noite. Deitou-se no chão, sorrindo mais.
Fim do aniversário perfeito.

III


Dali a uma semana seria a mudança. Ficar naquela casa era bom, mas ele se sentia mal com o que havia acontecido. Quem não se sentiria mal? Ela era sua mãe. Ok, ela já estava bem velha, e havia vivido bastante. Talvez tivesse sido melhor assim. Afinal, os últimos anos dela não tinham sido exatamente a melhor época de sua vida. Ele lembrava claramente, havia acabado de chegar das aulas de piano (diga-se de passagem, na opinião dele, o melhor trabalho que ele poderia ter conseguido, Não dava tanto dinheiro, mas era seu mundo mexer com todos aqueles pianos todo dia. E ensinar a tocar lembrava-o de quando ele próprio aprendeu.) e recebeu a notícia de que seu pai havia morrido. Não sofreu tanto quanto poderia, na verdade. Ele nunca foi bem um pai. Ele estava sempre viajando a trabalho, saindo de casa pra fazer coisas que ele nunca explicava, e sempre ocupado com aquela maldita imobiliária. Então eles nunca puderam fazer as "coisas de pai e filho" que deveriam ter colocado-o no seu papel de pai para chegar ao ponto de ele sofrer de verdade com a morte dele.
Mas a sua mãe sim, sofreu.
Ela havia dedicado a vida a fazer o que o pai dele não podia. Mesmo que ela tenha feito faculdade de design de interiores e sempre ter mostrado a vontade de ser designer dela (e certamente era por isso que ela estava sempre trocando coisas de lugar na casa e pintando coisas e falando que a casa precisava ser reformada.), nunca chegou a exercer. O marido (meio machista, até. Seu pai odiava o fato de que ele era professor de música. Não parecia bom o bastante para um homem de verdade. E o dia que contara o que seria no futuro foi um tanto problemático. Era fácil lembrar do escândalo que seu pai havia feito, quando quase o havia explusado de casa, até porque havia lhe deixado algumas marcas. Havia uma que, mesmo anos depois, ainda estava lá. Seu pai havia quebrado um bom número de coisas de vidro, cerâmica ou barro tentando acertá-lo. Uma delas hoje era uma marca leve no ombro. Pouco mais que um risco branco de uma cicatriz apagada.) sempre dizia que a partir do momento que eles eram casados a obrigação dela era cuidar do que ele não pudesse cuidar. Ele a sustentava, e ela fazia o resto. Mas ela sempre parecia até feliz ao fazer isso. Um sorriso fraco, mas um sorriso. Foi um tanto chocante na leitura do testamento, ler que ele havia deixado algumas coisas, mais especificamente 30% dos seus bens, pra uma tal Vivian R., que eles descobriram depois que era a amante dele fazia mais de 20 anos. Então sua mãe entrou em uma depressão violenta, tanto pela perda do marido quanto por ter notado que ela não era boa o bastante pra ele. Não pra ele querer só ela. Se o sorriso dela antes era apagado, agora ele era inexistente. Mais dolorido que ver ela triste, era ver que ela não demonstrava tristeza, e sim não demonstrava nada. Uma indiferença melancólica demais pra ser considerada raiva ou frieza. E ela não mudava mais nada de lugar. Ela mal mexia na casa. A limpava uma vez por semana, mas só. Era como se a casa tivesse perdido parte fundamental. Outra paixão que sempre tivera era a fotografia. Esperava que após a morte dele, sua mãe fosse ficar vendo fotos dele e chorando. Mas não. Ela não chorava ou via fotos. As fotos permaneceram anos intocadas. Até o dia que ela morreu. De forma bem calma, aliás. Dormiu numa cadeira de madeira, no jardim até um pouco mal-cuidado, que antes era impecavelmente arrumado todo dia e hoja não tinha mais esse brilho. Mas mesmo assim, ela ainda parecia gostar de ficar lá. Então ela, numa quarta-feira comum, sentou-se, dormiu e esqueceu de acordar. Ele não sabia se ficava triste, pela perda da mãe, a pessoa mais próxima que ele já teve, ou se ficava feliz porque a morte lenta e dolorosa dela havia acabado. Agora, era inevitável lembrar dela. Estava mexendo nos álbuns e se perguntando com quais deles ia ficar. Tinham alguns tão inúteis, com fotos e mais fotos de seu pai. Pensou em jogá-los fora. Eles lembravam de um passado não tão bom assim. Recordar, pra ele, nunca foi viver. Não tinha esse hábito. Lembrar das coisas despertava um lado um tanto quanto negativo nele, que lembrava das coisas que haviam sido ruins, e esse lado que foi despertado, despertava outras coisas, como raiva e tristeza. Se ele ficasse com esses álbuns, ele se sentiria mal pela mãe, e sentiria-se com raiva pelo pai. Tanto por si quanto por ela. Decidiu não separar álbum nenhum e jogá-los todos fora de uma vez. O quarto dela estava ainda com um ar habitado, faziam menos de 15 dias desde que ela havia morrido. Olhando pra cama, decidiu jogá-la fora. Poderia deixá-la lá pra quando fosse embora ficar pra quem comprasse, a casa era bem localizada, grande, bem feita. Ia ser um bom preço. E o preço valia mais do que qualquer lembrança. Só sentiria falta da sala onde ficava seu piano. Daria um jeito de levá-lo junto consigo. Não estava disposto a deixá-lo. Um lindo piano que era diariamente cuidado, preto, antigo, brilhante, a única coisa preta numa sala interiamente branca. Ele gostava desse contraste. E com uma grande janela ao lado, e uma estante que ocupava uma parede toda, que dividia lugar tanto com livros quanto com coisas. Era o lugar a que ele pertencia. Nunca se sentiu em casa em outros lugares da casa, só ali. Nem no seu quarto ele tivera durante a vida metade da paz que ele encontrava lá. A única pessoa, entre a empregada, a mãe, o pai, a avó e mais recentemente sua esposa que entrava ali, era sua mãe. Ela de vez enquando ia lá. O resto das pessoas passava longe daquele cômodo. Era o lugar DELE da casa, e ele fez questão de deixar isso claro. Se trancava lá enquanto estava e trancava-a quando saía. Sempre gostou da solidão. A solidão parecia protegê-lo das pessoas. As pessoas. Sempre tão irritantes. Nunca havia conseguido entender nenhuma delas. Ele não se sentia ignorante por isso, mas sim tinha mais certeza de que ele não havia sido criado pra contato constante com os outros. Era por isso que ele não falava muito e não tinha muitos amigos. As pessoas o aborreciam.
Acordou de seus pensamentos, e voltou a se concentrar no quarto. O armário. Era um bom armário. Sua esposa, Alicia, disse que queria ficar com ele. Seria útil. Ok. Pegou todas as roupas dentro dele, e sem olhar direito pra elas, jogou-as dentro de um saco. Havia uma caixa de jóias lá. Sua mãe tinha uns colares bem caros, pelo que podia lembrar. Ma também não queria dá-los ou vendê-los. Era egoísta com as lembranças, e queria que elas terminassem com ele, embora não quisesse vê-las nunca mais. Jogou dentro do saco também. Sua mulher havia prometido não opinar sobre o que ele fizesse com as coisas. Só havia pedido o armário e o jogo de cristais. Um jogo que ele teria jogado fora se ela não tivesse pedido. Assim como o faria com o armário. Mas tudo bem, ela pediu, não havia problema em deixar as coisas para eles levarem. Colocou o tapete, que estava lá desde que ele havia nascido, no saco também. Os criados-mudos iam ser jogados fora. A penteadeira. Tudo que esta continha, também estava sendo colocado em sacos. Talvez ele tivesse medo de lembrar daquelas coisas todas. Tudo bem. Não importava.

Arrastou os sacos pra fora do quarto.
Desligou a luz.
Trancou o quarto e pendurou a chave no gancho.

Esperava que essa fosse a última vez que tinha visto tudo aquilo. Realmente esperava.

II


Enquanto eu estou aqui, sentada no quarto, parece tudo tão mais claro. Apesar das luzes estarem apagadas, e eu estar escrevendo com a luz que a lua e a rua trazem, tudo parece mais claro que nos últimos tempos. Eu não esperava que toda essa "clareza" fosse tão estranha. Quanto mais claro, mais problemático tudo ficou. É como se a luz revelasse neblina. Eu deveria estar triste por tudo? Eu deveria estar ressentida? Eu não sei muito bem como eu estou, eu só sei que eu não estou bem. Sabe por que eu não estou bem? Porque eu não sei se tenho forças pra fazer o que eu preciso fazer. Eu sei o que eu preciso fazer. Não é a força, na verdade, é a coragem. Eu nunca fui corajosa. Eu sempre fui fraca. Você sabe, você me conhece há, hm, 11 anos agora em Junho, não é? Parece que foi ontem que eu tinha treze anos. Eu tinha treze anos e te conheci. Eu fingia negativismo e sonhos mais altos pra esconder uma natureza não tão sonhadora, mas que se prendia demais à realidade, e tinha medo dessa realidade. Então por que eu me prendia a ela? Eu não sei. Eu não era muito boa em sonhar. Mas você me mudou muito. Pelo menos, aparentemente.
Não foi uma mudaça imediata. Foram alguns anos, três, quatro anos, com apegação, e você se apegou a mim. Eu me apeguei a você. Eu já havia te dito que eu era uma pessoa cansativa; E como qualquer pessoa cansativa, eu me cansava fácil dos outros também. Você chegou a me perguntar se eu ia me cansar de você. Eu, como qualquer pessoa faria, respondi "não".
Eu queria que você não tivesse acreditado. Infelizmente, você levou seus sentimentos bem a sério. Eu tentei levar os meus também, mas, como eu já disse antes, eu sou cansativa.
Depois dos três ou quatro anos, você e eu tínhamos um modo diferente de nos tratar. Foi nessa época que você se mudou. Pra outro estado. Eu senti tanto sua falta. Quando eu fui ver você, acho que não foi só aquele "modo diferente de nos tratar" que influenciou no que aconteceu. Foi a saudade também. Porque todas as demontrações diárias de carinho de toda amizade supriam um tratamento que nós tínhamos, mas quando eu te vi tudo que eu queria era ficar perto de você. E acabamos nos tratando como bem mais que amigos. E a minha mãe não sabe até hoje que quando eu disse que ia dormir num hotel, eu na verdade não apareci lá e fui pra sua casa dormir com você. Quando você foi o tipo de garoto que toda garota quer e se preocupou com a nossa amizade, depois disso tudo, eu notei que eu tinha esquecido o quanto você era sentimental. Não, sentimental não. Você se levava a sério. Só isso. Como você fazia isso? É o tipo de coisa que você é muito bom e eu sempre quis ser também. É o tipo de coisa que me fazia admirar você e foi o tipo de coisa que me fez gostar de você. Depois de duas idas e vindas nas visitas que eu fazia a você, a cada três meses, eu voltei pra casa e falei pra minha melhor amiga (a Amanda. Lembra dela? Ela continua sendo minha melhor amiga. Acho que você sabe disso.) que nós estávamos namorando. Você foi o primeiro namorado que eu levei a sério. O primeiro que durou mais de um mês, também. E nós passamos anos nessas idas e vindas. Eu não podia sair daqui. Você não podia sair daí. Mas eu nunca tive aquele medo tão comum de ser traída, porque eu confiava muito em você. E por muito tempo, isso funcionou. Quando você vinha aqui, ou eu ia aí, era tudo tão legal, sabe? Eu me sentia feliz. Aí, depois de um tempo, quando eu ria com você, não era um sorriso tão feliz. O seu continuava feliz. Quando eu falava com você, não era mais com tanta vontade. Você continuava o mesmo. Quando eu estava com você não era com tanta saudade. Você, invariavelmente, continuava igual. Talvez todo esse sentimento que você parecia ter e que eu certamente não tinha tenha me feito cansar. Só talvez. Bom, eu sei que você deve estar aborrecido com isso, mas uma hora eu teria que te falar de tudo que aconteceu: Você provavelmente nesse momento odeia o Thiago mais que qualquer um. Ou não? Espero que não. Mas eu duvido. Não foi bem culpa dele. Foi minha. Se eu gostasse de você o tanto que você merecia, isso não teria acontecido. Eu lembro que você odeia ele desde sempre, e já chegou a dizer que ele ficava dando em cima de mim. Há um mês, quando você foi embora, depois do feriado, ele me convidou pra ir na casa dele e eu fui. Não era sem intenção. Na verdade, eu já sabia o que ia acontecer, eu acho. No fundo, acho que eu sabia. Ele começou a me contar que ele tinha certeza de que eu não gostava dele, que ele via isso há muito tempo em mim, e quando ele disse isso, eu notei que ele estava falando a verdade. O Thiago não foi nunca do tipo que mente pra conseguir as coisas. Ele é sério. Menos que você. Ele é sério em relação a coisas que você não é e você é sério em relação a coisas que ele não é. Mas nisso eu sabia que ele estava se levando a sério e eu sabia que era verdade. Então eu decidi parar de me enganar, porque aquilo não estava me fazendo feliz. E a minha felicidade, infelizmente, vem antes da sua, pra mim. Eu parei de fingir pra mim que eu era uma namorada fiel e apaixonada, pelo menos um momento. Você acabou descobrindo isso depois, não é? E você acabou ressentido principalmente pelo fato de eu não ter te contado. Eu ia te contar, embora seja meio difícil acreditar nisso (ou acreditar em mim, depois de tanta coisa!). E você me contou depois que ainda queria ficar comigo. Eu meio que senti pena de você. Porque você acreditou que eu, não, que VOCÊ ainda poderia me fazer gostar de você e fazer tudo voltar ao normal. Eu tentei. Você queria morar comigo, aqui. Ok. Você se mudou pra cá. Cada dia foi do tamanho de um mês. Foi tudo tão entediante. Eu notei que eu não conseguia gostar de você. Não como você queria. E eu comecei a me sentir presa por você e notei que eu não podia mais ficar aqui sendo a sua alegria. Talvez eu não me importe com você o bastante pra querer ser a sua alegria. Eu quero ser a minha, e acho qeu eu não vou encontrar ela por aqui.

E eu sei que você não gosta muito de coisas longas, anjo.
E eu sei que você não gosta muito que eu te chame assim. É a última vez.

P.S.: Desculpe por não pode dizer "eu te amo." e por não poder ter amado você.

I


As luzes agora eram mais fracas. Ele agradeceu por isso, a dor penetrante na sua cabeça aumentava com as luzes. Toda aquela energia. Toda aquela agitação. Toda aquela sensação de bem-estar. E todas aquelas seringas, por que não? Elas foram uma dor que foi abstraída com o tempo. A euforia era maior. Era a melhor coisa. A melhor saída. Quem ligava pra se ele não tinha um pai? Quem ligava se a mãe dele não estava nunca em casa e mal lembrava o nome dele? Quem ligava se o irmão dizia que ele é uma vergonha e o chamava de bicha? Ele não ligava. Não quando ele escapava. Não ligava porque as coisas pareciam perder o sentido. Aquela sensação era tão... Perfeita. Era como se a vida dele ser um lixo não importasse, desde que as luzes coloridas e fortes (não tão fortes agora, aliás.) que brilhavam quando ele fugia disso tudo continuassem a deixar as coisas mais lentas e mais rápidas ao mesmo tempo. Era uma sensação única. Mudava tudo. Mudava até os pensamentos. Não que fosse um prazer simples. Era caro. Sem contar o quanto emagreceu, ficou com uma aparência abatida, e coisas assim. Quem ligaria pra aparência abatida? Sua mãe? Pelo amor de Deus, não era como se ela tivesse algum tempo pra isso. Mas o dinheiro era um pouco mais complicado. Umas três ou quatro vezes torceu para sua mãe não notar o dinheiro que andava sumindo. Mas o pior era que as luzes eram tão boas que ele queria vê-las sempre. E pior que o pior:
As luzes andavam diminuindo.
Cada vez que as via, ele estava mais fraco. Essa fraqueza se refletia nelas. E agora ele mal as enxergava. Na verdade, ele mal enxergava algo. Com um esforço enorme, foi até a porta e a trancou. Não, seu irmão não podia entrar. Não agora. As luzes estavam sumindo. O que ele faria se elas sumissem de vez? Ele ia viver sem elas? Ele CONSEGUIA viver sem elas? Agora não eram só as luzes. Agora eram os sentidos em geral que sumiam. A dificuldade de respirar. O que estava acontecendo? Tentou a sua última seringa. Uma última chance. Mas ele não exergava o bastante para ver onde colocá-la. E sua mão não estava firme o bastante para aplicar. E agora? Tudo ficava mais escuro, todos os sons haviam sumido. Ele não conseguia se levantar, só via borrões.
Mais dificuldade de respirar.
Mais dificuldade de respirar.
Mais dificuldade de respirar.
E a dificuldade de respirar sumiu. A de ver. A dor de cabeça. A fraqueza.
Sumiu junto com todo o resto.