20090221

XIV

Era isso. Ele e a porta, um de frente para o outro. A porta reluzia, em números dourados (“Mas certamente não de ouro”, pensou, tentando descontrair a própria mente) que anunciavam que aquele era o apartamento 506 daquele prédio. Logo acima dos números encontrava-se um olho mágico, este batendo aproximadamente abaixo do seu nariz (era alto, eu diria uns 1,80m.). Estava suando um pouco, e pensando se realmente valia a pena aquilo tudo. A primeira vez que tentou foi logo aos sete anos. Lembrava-se como se fosse ontem.
Ela estava sentada num canto com as amigas, mexendo e remexendo em roupas de bonecas loiras e com corpos a la Hollywood, falando no lugar das bonecas mudas coisas como “Vamos às compras, Laura?”, e “Claro, Antonia”. Chegou perto dela com uma iguana de plástico – todos os seus amigos adoravam aquela iguana, então, ela provavelmente também ia gostar. Ou ao menos era o que parecia em sua mente de sete anos. – e disse “oi”. Todas as três garotas que estavam sentadas ali (lembrava-se bem dela com o uniforme verde e branco da escola e seus cabelos na época muito cacheados e muito castanho-claros, e seus olhos muito escuros. Mas não conseguia se lembrar de absolutamente nada das outras) sairam correndo na mesma hora, quando viram a iguana. Então, desapontado, voltou para seus amigos, que sempre gritavam entusiasmados com a iguana. Talvez ela não tivesse tanta graça quanto aquela tal Barbie. Talvez ele devesse comprar um vestido rosa pra iguana. Mas ele não comprou, afinal.
Depois ele riria de tudo isso, mas, na hora, foi um baque para seu mundo juvenil. Demorou um tempo, talvez uns três dias, até ele reaceitar a iguana como sua companheira, pois, ao ver aquela cara de nojo dela, tudo pareceu muito sem sentido na iguana. Na iguana, em seu uniforme verde e branco, em seu cabelo loiro e arrumado pela mãe, em seus amigos, qualquer coisa que era legal parecera estranha e errada naquele momento. Ajeitou a camisa. Estava com suas roupas casuais, não queria parecer um imbecil, mas havia tomado cuidado com o que vestir hoje e tomado um bom banho. Queria estar apresentável. Ajeitou o pequeno rabo-de-cavalo loiro até bem pouco abaixo dos ombros e sacudiu a cabeça. Como havia sido mesmo a segunda vez? Ah! Foi a da bicicleta.
Já com dez anos, estavam na escola. 11:30 e o sinal acabara de tocar. Ela ajeitou sua mochila roxa e saiu da sala com as amigas (também não lembrava dessas, mas não eram as mesmas de três anos atrás.) bem antes dele. Quando foi sair da sala, notou um caderno pequeno de espirais embaixo da mesa dela. Era a oportunidade de uma vida. Poderia entregar a ela e tentar puxar algum assunto. Qualquer um. Não importava realmente. Correu até o caderno, e depois, correu atrás dela. Ela estava saindo com a bicicleta, e, mesmo não sendo exatamente um atleta de dez anos, ele correu rápido o bastante para chegar bem perto dela. Gritou seu nome, e ela olhou espantada para o lado. A bicicleta perdeu o equilíbrio, e ela caiu no chão. Começou a chorar, e ele a levou até a sua casa na bicicleta dela (mesmo que parecesse ridículo ele numa bicicleta rosa, aquilo não importava na hora), onde sua mãe cuidou dos machucados da menina. Ela ficou bastante ressentida e foi embora. E ele nem ao menos pôde entregar o caderno.
Ok, agora não parecia mais grande coisa aparecer lá com uma roupa fina. Já havia sido imbecil várias vezes desde que a conhecia, ela provavelmente nem notaria ou não ficaria surpresa. Deu uma risada sem-graça e olhou para o relógio. 13:57. Se daria mais três minutos. Bom, pensando pelo lado bom, as coisas melhoraram com o tempo. Da primeira vez, ele teve rejeição total. Da segunda vez, ele ao menos falou com ela. E, da terceira vez, já com 12 anos, começaram uma amizade.
Durante o intervalo, ele estava sentado enquanto ela pulava corda com mais umas quatro garotas e um garoto. E se ele fosse até lá e pulasse corda com eles? Ele podia aproveitar a chance. Nunca foi um perdedor na escola, só não era um dos mais famosos. Então, não iam ter motivos para exlcui-lo. Caminhou decidido, tão decidido que nem ao menos viu que a corda estava indo direto no rosto dele com toda a força e havia o derrubado. Ficou desmaiado por menos de 30 segundos, mas ela se ajoelhou do seu lado e perguntou se ele estava bem. Disse que “já esteve pior”, e ela o levou à enfermaria. Começaram a conversar ali, e, pelos próximos dez anos, não pararam.
Definitivamente, poderia ser pior! Resolveu se apoiar nessa esperança e deu uma última olhada no buquê de flores-do-campo. Limpou a garganta, ajeitou mais uma vez o cabelo e a roupa e tocou a campainha. Era agora ou nunca.

20090128

XIII

Ela respirou devagar, andando pé ante pé, esperando não ser ouvida da sala que ficava ligada ao corredor. Ele estava lá, e e ela não queria olhar pra cara dele. Se possível, nunca mais. Estava lá, com toda a majestosidade com o qual sempre se portava (e que a havia atraído), lendo um livro. Entrou no banheiro. Trancou a porta. O 'clunck' da chave com certeza o acordaria de seu livro, mas esperava que não acontecesse. Tirou as roupas correndo, anseando por entrar no chuveiro para poder dar uma desculpa para não abrir a porta. Ligou a água do modo mais barulhento que pôde, bem forte. E então, menos de trinta segundos depois, ouviu batidas na porta.
– Querida, é você aí, imagino. – a voz por trás da porta era calma, pausada, mas decidida. Uma voz como as de professores, mas bem mais baixa e calma. Manifestava uma alegria silenciosa. Esperou por uns vinte segundos.
– Querida? – ela sabia que ignorá-lo seria ruim. Então, com uma voz trêmula, respondeu.
– Sim?
– Não ouvi você levantar. E você não foi falar comigo. – um frio assassino percorreu a espinha da mulher. Ajeitou um pouco a temperatura da água, fingindo pra si que era culpa do chuveiro.
– Ah, estava precisando muito de um banho. Muito. Desculpe.
– Tudo bem. – então, sem nenhum aviso, a maçaneta girou. Então, instalou-se um silêncio absoluto, diante da porta fechada. Logo, ele voltara a falar. Dessa vez de forma mais séria. Uma pessoa qualquer interpretaria como mera surpresa ou falta de reação à situação, mas ela sabia, era muito mais que isso. – Você trancou a porta. –, disse.
– Oh, achei que não teria nenhum problema. Enfim, eu já estou acabando aqui, mesmo. Dez minutos. Ok?
– Claro, querida. Posso lembrar-lhe de uma coisa? – Ela temia quando ele dizia essas coisas. Sabia que ele havia ficado realmente sério, e sabia o que estava por vir.
– … Do quê?
– Eu amo você. Mais do que alguém vai amar você pelo resto da sua vida.
Gelou de novo. Sabia que ele esperava uma resposta. Uma resposta bem específica.
– Eu também te amo. –, disse, com a maior emoção que pôde. Terminou o banho, e saiu do banheiro, indo em direção ao quarto. Não trancou a porta. Sabia que a mesma desculpa sobre não ter problema não funcionaria duas vezes; aliás, não havia funcionado nenhuma, mas sabia que ele ficaria irritado dessa vez. Não deu outra. Logo em seguida, a porta abriu, e um homem alto, magro, com cabelos bem pretos e um olhar confiante e sério adentrou o quarto. Sentou-se na cama de casal, ainda desarrumada, enquanto ela se vestia.
– Então – disse ele – como dormiu, querida?
– Hm, normal. E você?
– Não muito bem.
– E... por quê?
– Ah, não sei. Mas estou bem cansado. Acho que vou dormir durante o dia, hoje.
– Mas nós não íamos sair?
– Íamos? Bom, então íamos. Acho que podemos fazer isso amanhã, não é?
– Ah, claro. – desanimou-se. Estava ansiosa por sair de casa. Não saía de casa fazia alguns dias, e respirar aquele mesmo ar estava começando a ficar perturbador.
– Tenho um presente pra você. –, disse ele, sem nem ao menos olhá-la.
– Um presente?
– É, espere um segundinho. – saiu do quarto, e ela aproveitou esse momento para pegar a escova de cabelo e começar a penteá-lo. Então, ele apareceu de novo, pela porta, com um estojo preto daqueles em que se guarda jóias, em forçato quadrado. Médio.
– Eu comprei ontem –, disse ele – mas esqueci de te dar. Veja só. Sentou-se ao lado dela na cama (a essa altura ela já havia acabado de pentear o cabelo, e olhava para o estojo.) Abriu o tal estojo, e, dentro dele, estava um lindo colar em prata, com pedras roxas. – Não é lindo? – disse ele. Num descuido, olhou-o nos olhos. Oh, droga. Ele estava com aquele olhar diferente. Ia começar tudo de novo. – Venha. Vamos ver como ele fica.
Se encaminharam até a porta do armário, e ele abriu-a. Dentro, havia um espelho, que ia de um pouco acima da cabeça dela a mais ou menos a cintura. Então, ele posicionou-se atrás dela e ajeitou seu cabelo castanho-claro pra frente, para poder mexer melhor no pescoço. Fechou o colar atrás e olhou-a, ainda de trás. Estava com um sorriso quase maldoso (quase?) no rosto.
– Sabia que ia ficar perfeito em você. Ele quase não aparece na sua pele. Ela é clara demais. Parce um monte de pedrinhas roxas coladas em você. Não que eu esteja reclamando disso. – disse a última frase com os lábios perto da orelha dela, olhando para o pescoço. Ah, antigamente, quando ele fazia essas coisas... ela sentia-se arrepiar por inteiro. Era bom. Agora, isso a assustava.
– Eu sei que você não está reclamando –, disse ela, tentando cortar o assunto. Ela não queria, ela estava cansada, enjoada, e, principalmente, com medo. Mas ele provavelmente sabia disso tudo, e não ligou nem um pouco. Começou a beijar o pescoço dela, indo pra base e para os ombros.
– Quantas vezes eu já disse que você é linda?
– Muitas – disse ela, seca. Então, ele fechou o armário.– E você não gosta? – Virou-a e olhou-a nos olhos. Aquele olhar possessivo, com algo que era mais uma obsessão que uma paixão, um olhar que ela julgava louco.
– Olha... eu tenho que... fazer o almoço. – tentou virar-se, mas ele segurou seu rosto.
– Por que você está me tratando assim, querida? Houve um tempo que você respondia ao meu toque tão melhor. E eu não te amei menos, só te amei mais e mais, e você, no entanto, não anda sendo tão receptiva quanto poderia. Você duvida do meu amor? – ele começara a trazê-la para perto da cama, e então, deitou-a e deitou-se por cima, olhando fixamente nos olhos dela.
– Não. – e realmente não duvidava. Ele a amava, mas era de um modo possessivo que ela não conseguia aguentar. Era de um modo muito maior do que um simples amor com muitos ciúmes. Muito, muito maior.
– Eu também não duvido do seu. Mas você talvez duvide. Eu te dou uma vida tão confortável, eu amo você mais do que todo mundo, eu só preciso de você. Mais nada. E sabe, você disse que me amava. E um amor de verdade é pra sempre. Você e eu vamos nos amar pra sempre, não vamos? Você vai me amar pra sempre? Porque eu sei que eu vou. Eu não sobreviveria sem você. – estreitou os olhos olhando pra ela.
– Ah. Eu sei. – Então ele sorriu. Um sorriso franco, um sorriso largo, um sorriso tão louco quanto todo o resto.
– Que bom, querida. – então, ele beijou-a.

20090109

XII (teoricamente)

Esses textos são velhos, mas nunca lembrei-me de colocá-los aqui. Não gosto particularmente do primeiro, e não tenho muita opinião sobre o segundo, mas...

A

Quando ele chegou com aquele sorriso largo falando que havia tido saudades, me enchendo de beijos, eu ri um pouco e falei que também me sentia assim. Aquele sorriso imutavelmente largo. Aquele sorriso foi uma das coisas, que no começo, mais me atraiu. Parecia tão bonito, tão sincero, tão feliz. Agora parecia simplesmente um sorriso largo de uma forma que me irritava levemente.
Há duas semanas, ele tinha ido viajar com a família para a praia, passar as férias de meio de ano. Foi uma época que eu simplesmente esqueci que tinha um noivo. Esqueci que eu tinha um dia conhecido um cara chamado Henrique, que fazia Ciência da computação junto comigo, que eu tinha conhecido ele há um ano e meio, começado a namorar há dez meses e ele havia me pedido em noivado há três, e ele era perfeito. Simplesmente perfeito. Em absolutamente tudo. Namorado, pessoa, tudo que ele poderia ser ele era. Não era aquela perfeição escancarada, mas era a perfeição que chamariam de perfeição nos defeitos. Era o tal príncipezinho encantado que toda garota de seis a quarenta e seis anos quer. Levemente ciumento. Carinhoso. Amigo. Divertido. Independente. Nunca era do tipo que enchia o saco, ele era cômodo. Sempre que você estivesse se sentindo com vontade de ter um namorado, ele estava lá. É como um prendedor de cabelo. Ali quando você achar conveniente, senão, é só jogá-lo pro lado e fim. Ele não vai te encher o saco se você sumir uma semana e, do nada, chamar-se pra dormir na casa dele. Muito, muito prático mesmo. Um cara que, apesar de se importar com os amigos, não era altamente rígido com isso, não ligando tanto assim. E ele tinha um senso de humor ótimo. Com um tom sarcástico que deixava-o interessante. Nessas coisas, pareciamos opostos.
Eu, sempre que aparecia, perguntava-o o que andava fazendo. Sentia ciúmes, mas não como o meu namorado amado. Sentia isso como o tal prendedor de cabelo, mas o favorito. O que melhor prende. Não empreste-o, ou podem estragá-lo. Amava-o como uma coisa, não como uma pessoa. Eu própria via isso, mas preferia ignorar solenemente. Apesar disso, era meio capacho com os amigos. Era enganada fácil por esses, confiava fácil, se ferrava fácil. Eu tinha muitos, muitos problemas de amizade. Claro, sempre há os bons, mas ainda assim, boa parte das vezes, eu confiava nos errados. Erros que se repetiam, e repetiam. E quando diziam que eu "precisava prestar mais atenção nas pessoas que eu confiava", o ego meio que impedia de admitir-me a realidade, que não era por falta de aviso, não era por burrice. Era pra sempre poder falar quantos amigos confiáveis tinha. O quanto os amava. É, por mais ridículo que seja, eu ainda vangloriava dos amigos apesar de tudo, nunca me permitindo afirmar pra alguém (incluindo e principalmente eu) que apesar de eles serem uns merdas, eu era a pior por fingir colocá-los num pedestal que nem eu mesma achava que estava ali. Falsidade pura. A base de qualquer relação social estável.
Ele, principalmente, era sempre quem me falava que eu precisava ter mais cuidado com essas coisas. Bom, ele sempre foi tão sábio. Não inteligente. A inteligência era normal. Mas ele sabia das coisas, sabe? Ele sabia sempre o que fazer e tal. Dava inveja. Não, não era levezinha. Por um tempo foi, bastante. Eu confundia com admiração, até.
Afinal, ele era tudo que eu sempre quis ser.
Mas sei lá, com o tempo aconteciam aquelas coisas quando eu tentava me aproveitar de uma situação e dava errado, e ele, acima de um namorado, vinha como um amigo, me aconselhar pra não acontecer de novo. Será que ele realmente tinha fé em mim? Que eu pudesse mudar meu modo de agir? Não deveria. Eu sempre fui egoísta e orgulhosa. Muito.
Não se pode ter fé em pessoas egoístas e orgulhosas.
Uma hora elas vão acabar machucando você e você não sabe como elas vão fazer isso.
Ele, depois de tanta saudade, me convidou pra passar a noite na casa dele. O fim de semana. Aquele sorriso insistente e inquebrável. Um fim de semana todo.
Certo.
Quando chegou a hora de ir pra lá, ele passou aqui. Ele não tinha me avisado que ia, mas falou que deu vontade. Ah, por que não?
Enquanto conversávamos, ele perguntou como andava a Ana. minha melhor amiga há um mês. Não costuma durar mais que isso. Não comigo. "Brigamos", eu disse. Então ele perguntou o porquê. "Ah, basicamente ela tirou meu nome do trabalho da faculdade pra ficar com o crédito pra ela.". Eu sabia que ela ia fazer isso alguma hora. Então ele saiu falando que eu precisava tomar mais cuidado com isso, que além de tudo era coisa da faculdade e tal, e que eu não podia ter confiado nela do nada, e que eu já tinha idade pra saber disso e qualquer coisa assim. Bah. Então, ele perugntou por que eu fiz isso. "Isso o quê?", perguntei. E ele disse que era ter deixado com ela o trabalho e ter confiado um trabalho a ela do nada. Então, eu pensei. Foi impulso.
Eu sou impulsiva.
E egoísta.
E orgulhosa.
Maravilha. Não respondi.
Depois de uns dez minutos, ele falou de novo pra eu me cuidar. E eu disse "É. Você tá certo. Como de costume." e ele explicou rapidamente que eu era uma ótima pessoa, ele me amava, mas ainda assim, eu tinha um lado particularmente imaturo e que ele fazia isso e ficava parecendo meu pai, mas na verdade ele só queria que eu entendesse o que ele sabia que ia melhorar minha vida e que ele sabia o que ele estava falando, que não tinha problemas assim porque ele tomava cuidado com certas coisas.
"É. Você sempre toma. Você sabe das coisas."
Acho que ele notou um tom amargo na minha voz, porque ele simplesmente ficou sem jeito e calou a boca. Quando chegamos na casa dele, nós fizemos absolutamente nada, vendo TV juntos. Ele não fez questão de se aproximar de mim a princípio, porque acho que ele ainda estava receoso de eu ter me aborrecido, depois ele ficou mais perto de mim. não importava mais, ele podia ficar o quanto perto fosse. Eu não me importava realmente com o que ele fazia, não mais. Era uma rotina ocasional. Talvez fosse o sorriso.
Então, ele perguntou quem eu ia chamar pro casamento. "Sei lá. Todo mundo?". Ele perguntou se eu ia chamar até Ana. "É.". Então ele ficou um tempo sem falar nada, talvez esperando que eu continuasse. "E você?", eu perguntei com um falso tom interessado. Não estava nem aí pra quem ele ia ou deixaria de chamar. Ele falou dos amigos dele, e começou a falar do padrinho que ele tinha escolhido. Heitor. Conheceu na 3ª série e desde então são amigos. Melhores amigos. Eu o conheci por ele, inclusive. Então ele falou um pouco sobre ele e eu notei que eu não entendi nada. Eu não entendo muito bem essas amizades dele. As minhas podem ser podres, mas são as que eu tenho e as que eu entendo. Viva com as cobras e aprenderá a ser uma. Cobras não são outra coisa. Só cobras. Não sei se ele ainda esperaria também que eu entendesse. Acho que não.
Mais tarde, jantamos. Eu o ajudei a fazer alguma coisa, e depois de comer vendo um filme, eu fui lavar a louça. Então o meu celular tocou. Era a Ana. Dois dias depois do tal incidente do trabalho, ela me ligou perguntando se quero sair com ela terça pra fazer alguma coisa. "Claro", eu respondi, e desliguei. O entusiasmo jovial com o qual ela falou não fazia parecer que ela tinha feito algo como o que ela fez. E a tão pouco tempo. Então, ele perguntou quem era, achando que era o dele. Eu disse que era o meu e disse que era a Ana. Então ele ficou meio intrigado, e perguntou se era pra pedir desculpas. "Não. Pra me chamar pra ir no shopping com ela." e ele perguntou se eu tinha aceitado e eu disse que sim. Então, ele disse que eu devia me valorizar. Que eu não servia pra conversar com gente assim, falsa.
Eu ri internamente. Um pouco. Ele tinha uma idéia tão inocente de mim.
Que bonitinho da parte dele.
Então, ele foi até a cozinha e perguntou se eu ia pra lá ver o resto do filme antes de dormir. Eu disse que ia terminar de lavar as coisas, enquanto eu secava um facão que eu tinha usado pra cozinhar. Então, ele deu um beijo em mim e se virou. Eu me virei pra ele, antes de ele sair da cozinha, fui na direção dele, e o sangue respingou levemente no chão quando eu enfiei rápido o facão na parte de trás do pescoço dele e tirei tão rápido quanto coloquei. Ele caiu pra frente, eu acho. Não sei. Eu só fui até a pia, lavei ele, e saí. E decidi ir pra minha casa. A prova final do meu egoísmo foi totalmente normal. Tão sem emoção quanto qualquer outra parte do dia. E eu saí com as minhas coisas, pegar um táxi e fim. Eu não tenho bem certeza de por que eu fiz aquilo, mas me senti como fazendo aquilo. E fiz. Não podemos esquecer que, além de egoísta e orgulhosa, eu sou impulsiva.
B

Oito horas e quarenta e oito minutos da noite.
Quarenta e dois minutos para a saída do vôo que me tiraria dali, para não voltar mais.
É impressionante o quanto aeroportos podem ser nostálgicos. Quer dizer, neles você é capaz de imaginar facilmente tudo que aconteceu e que não aconteceu. E quem sabe até, se você se esforçar, o que aconteceu mesmo do que aconteceu. Lá estava eu. Com um café na mão. Esperando. Esperando e esperando. Será que alguém saberia pra onde eu fui? Provavelmente não. Gostariam de saber, mas provavelmente não.
Quando eu decidi virar uma pessoa "de família" e realmente criar juízo, e me casei, eu não imaginei que fosse acabar assim. Eu estou, literalmente, abandonando ela. Vai ser melhor assim. Melhor não pra mim. Mas pra ela. Quer dizer, eu nunca fui o marido que ela tanto quis. A minha própria mente me forçava a viver com outros valores. Eu não fui confiável, eu não fui o amigo que ela esperava de um marido. Eu não fui nem o marido que ela esperava de um marido. Quantas vezes eu esperei que ela me chamasse de egoísta, quando eu aparecia em casa sem o dinheiro, o dinheiro que era necessário pras coisas mais básicas. O dinheiro que ninguém sabia (e que Você queira que eles nunca saibam.) onde eu gastava. Bom, provavelmente até sabiam. O que se espera de um marido que nunca foi um marido? Ela nunca me recriminou. Ela nunca reclamou. Ela só ficou quieta com aquele instigante ar triste, e eu me comovia com isso. Mesmo. Mas não fazia nada sobre isso. Aliás, eu fazia.
Eu fazia o que eu sempre fiz.
Eu observava.
Como a esposa silenciosa que ela era há três anos, no Inferno conjugal que eu a forçava a ter, com o silêncio que as minhas ações insistentemente tentavam destruir para dar vez à raiva, e nunca abalaram. Certa vez, eu cheguei em casa depois de dois dias, de manhã. Ela disse apenas "O açúcar acabou. Posso colocar adoçante no seu café?". Eu gritei com ela, gritei para que reagisse. Perguntei por que não reagia. Por que não fazia nada. E ela, com seu eterno silêncio, disse "vou deixar o adoçante na mesa caso mude de idéia." e saiu da cozinha. O tal Inferno conjugal era sempre aparente. Era uma prisão sem paredes. Você fica preso ali pela força insistente do comodismo. Ou de alguma outra coisa. Mas eu nunca falei uma palavra pra ela que indicasse que eu mandava nela. Eu nunca bati nela. Eu nunca sequer encostei nela. Ela se manteve ali, no silêncio. Ela sempre se mantinha ali. E acabou de dar oito horas e cinquenta minutos.
Agora eu me lembrava claramente do rosto dela no dia que eu "discuti" com ela. De algum modo, eu nunca conseguia me lembrar. Naquele dia eu havia ficado tão, tão puto da vida com ela. Não, de modo algum eu cogitei bater nela ou coisa parecida. O silêncio dela era irritante e ao mesmo tempo, instigante. Ao mesmo tempo que ver a reação dela me dava uma espécie de prazer meio "maníaco" por saber que aquele silêncio era meu, que era um comportamento que ela tinha por minha causa, que não existiria sem mim, parecia faltar alguma coisa. Outra coisa que pode ser julgada "estranha" é a raiva absurda que eu tinha desse silêncio. Faltava a reação. A raiva. Eu queria vê-la com raiva nem que pra isso eu tivesse que foder a vida dela até ela não poder mais ficar pior. Todo o desafio de derrotar o silêncio. O silêncio indiferente. De mudar a natureza que eu próprio forcei. É como brincar de Deus. Você vai lá. Você modifica uma natureza. Ela fica do jeito que você quis. Não é satisfatório? Depois, quando você começa a enjoar dessa natureza, é hora de mudá-la. Mas quando você crava uma natureza fundo demais, fica difícil mudar. Eu sei disso. Eu tentei todo dia. Eu passei de Deus a mortal. Do que cria pro que tenta criar.

XI

Enquanto voltava da farmácia, bateu-lhe uma nostalgia incrível dos dias antigos. Os dias em que ele acordava mais cedo para trabalhar, com a esposa já de pé, comendo. Ela lhe diria “O café está quente – fiz a menos de dez minutos”, e ele tomaria café com ela antes de ir tomar um banho e ir para o trabalho. E, quando ele chegasse, iria para a biblioteca de sua casa e iria abrir a sacada. Chegava no fim da tarde, e sempre podia ver a luz do pôr-do-sol entrar no cômodo, deixando um brilho alaranjado no mesmo.

Abriu a porta, sem fazer muito barulho, e pôs a sacola de compras na bancada da cozinha. Abriu devagar a porta do quarto. A esposa estava dormindo. Toda aquela parafernália nela, aqueles tubos para respirar, aquele ar doente do quarto. Voltou à cozinha, separou os remédios dela (ultimamente, ela havia gastado tanto dinheiro com remédios. Mais até do que o normal. - havia mudado de emprego, pra poder ir pra ele mais tarde, já que na parte da manhã ele precisava cuidar dela, e agora ganhava menos, e isso dificultava ainda mais as coisas.) e colocou no quarto, em cima do criado-mudo. Passou na frente da biblioteca, e pensou em pegar um livro pra ler. Talvez cochilar um pouco, e depois, tomar um banho. Fazia algum tempo que ela estava na casa deles, e não no hospital. Sabiam que não ia ter jeito, então ela não queria passar seu tempo lá. E ele tentava mantê-la o mais confortável e feliz que pudesse. Escolheu um livro qualquer. Estava cansado, sabia que não ia demorar pra dormir. Olhou em direção à sacada, com a sensação de nostalgia ainda forte, e abriu-a, pela primeira vez em dois anos e meio. Respirou o ar suburbano um pouco mais limpo do fim de tarde, e sorriu para o céu alaranjado que ele tanto conhecia.
Deitou-se no sofá, e depois de menos de quatro páginas, dormiu, com o brilho do sol poente manchando-lhe o rosto.

20081212

X

Olhando-se no espelho, pensou em como havia se tornado aquele monstro. As pessoas da escola estavam certas, ela não passava de uma obesa. Nada além disso. Não era uma casca vazia, mas só porque essa tal casca estava cheia de gordura. Podia ver cada pedaço de si mesma, da cabeça aos pés, como uma grande almôndega. E provavelmente o mundo todo a via assim, já que o modo como eles a tratavam era como se ela fosse uma almôndega. Uma almôndega estragada. Uma coisa feia e ruim, que devia ser jogada no lixo, e não havia nenhum problema nisso, já que a tal coisa não sentiria nada. Era só um pedaço de carne. E era exatamente isso que faziam com ela. Jogavam-na no lixo, ao modo deles.
Não tinha amigos e não culpava ninguém por isso. Quando você anda com um monstro, você não somente anda com ele. Você se torna um, também. É como se um hipopótamo de 50 metros invadisse a linda cidade de Utopialândia, e algum cidadão qualquer decidisse que o bicho devia ser tratado com amor. O que o resto faria? O julgaria um maluco, um ser que devia ser expurgado antes que a febre que ele possuía infectasse o restante.
Mas ela se sentia amada, sim.
Por mais incrível que parecesse, ela era amada por algo. Mesmo que nem ela entendesse o porquê de esse algo gostar dela, ela era amada por algo e isso era um fato. Ela tinha um porquinho-da-índia, Fernando, e ele realmente não tinha medo de chegar perto dela. O que era praticamente inconcebível, porque, quer dizer, se ela fosse Fernando, ela teria muito medo. Porque aquela coisa poderia esmagá-lo a qualquer momento. Mas não, ele ficava perto dela e ela cuidava dele do melhor modo possível. Ele era a única coisa que ela tinha, e ela não queria desperdiçá-lo. Tratá-lo mal. Não, ela tratava-o o melhor impossível.
Havia acabado de chegar da escola, de mais um dia de humilhação – o pior dia da semana pra ela, quinta-feira, dia de educação física – e ainda não havia ido falar com Fernando. Saiu correndo para o quarto, com seus pesados passos maltratando o chão. Abriu a porta, e tomou um susto. A gaiola estava ali; Fernando não. Foi procurar a mãe imediatamente e perguntou-lhe o que havia acontecido com ele.
“Filha, eu gostaria que você pensasse assim: ele era bem velho, e viveu bem mais que um porquinho-da-índia normal. Então...” Interrompeu-a. Quis saber o que ela estava querendo dizer. “O que eu quero dizer é”, disse, “Fernando morreu, filha. Faz umas três horas. Se quiser, podemos ir comprar um novo amanhã mesmo.”. Não conseguiu responder. Virou-se, entrou no quarto e trancou a porta.
Agora ninguém mais a aceitaria. Ninguém mais a amaria. Ninguém mais apreciaria sua companhia e cuidados. Estava sozinha no mundo, e dessa vez, era definitivamente. Chorou sentada na cama por mais de uma hora, quando se virou para o lado. Um espelho. Mais um desses malditos. Viu aquela coisa bestial e vermelha, com feições distorcidas (mais até que o normal) pelo choro. Banhas saindo até de onde ela nem sabia que podia ter banhas. Sentiu-se mais feia que nunca. Feia. Gorda.
Gorda e sozinha.
Então, depois de alguns segundos se olhando, virou-se, destrancou a porta. Precisava comer alguma coisa. Ia comer pra esquecer, e pra ser mais gorda do que sozinha novamente.

20081112

IX

Sentado no sofá do hospital, ele olhava o rosto repousante da esposa. Com apenas 37 anos, já não haviam mais esperanças de que ela vencesse a doença que já havia a debilitado tanto que ela só passava o tempo deitada naquele hospital nojento, esperando por uma morte que, infelizmente, tardava em chegar. Não é que ele quisesse se ver livre da esposa, mas esse sofrimento dela era desnecessário pra ele, e torturante pra ela. Três vezes por semana (quarta, sábado e domingo), ele ficava lá com ela. No restante, quem ficava era a irmã dela, que estava de férias.

Ela passava o dia inteiro letárgica, devido aos remédios para amenizar sua dor. E dormia ao menos durante 15 horas. Não era um trabalho realmente difícil ficar lá, mas para um acompanhante de hospital, o mais difícil não é ficar, é aquele hospital que se fecha ao seu redor, como um tribunal que lhe acusa de todos os seus crimes contra o paciente. A sensação de que simples enfermeiras cuidam mais dela em uma semana que você jamais cuidou em quase 20 anos não é a mais agradável. Costumava culpar o trabalho. Chefe de finanças duma loja de porte médio/grande. Mas ali, naquele branco infindável do quarto 232, ele sabia. Não havia sido o trabalho, não adiantava mentir pra si mesmo. Bom... Ao menos não sempre. Quando olhava para trás e via aqueles momentos em que, mesmo sem sono, ele ficava deitado até meio-dia no domingo, só pra não sair do quarto e ter que cuidar da filha, ajudar a limpar a sala, preparar o almoço, depois sair e conversar com a mulher, como faziam quando eles tinham seus 18 anos, os dois recém-entrados na faculdade (a mesma faculdade, mas cursos diferentes. Ela fez Letras, queria ser professora de Português. E ele fez Contabilidade, queria ganhar dinheiro. Os dois, felizmente, conseguiram o que queriam.), e passavam o dia todo em algum lugar como uma sorveteria qualquer conversando sobre qualquer coisa que não teria a mínima relevância depois, como dois bons jovens. Mas, depois de uns anos de namoro, as coisas viraram mais passar o dia sem se ver e se encontrar depois pra ter alguma satisfação sexual. E claro, o presente de Dia dos Namorados. Às vezes ela o ligava querendo sair pra bater um papo. Ela, ele e mais uns amigos. Recusava, não estava interessado em sair agora. “Outro dia, sim?”. Estava tão ocupado virando um profissional em sua área, para virar um dia um homem rico e interessante, e talvez quem sabe ficar junto da garota que gostava dele desde antes, como toda boa estrela de qualquer área, que esqueceu que ela existia (esqueceu nas horas irrelevantes das conversas que não teriam importância depois, e que os tornaram amigos, mas continuava sendo namorado dela.) Às vezes via algum coisa que lhe lembrasse dos velhos tempos, e começava a pensar em como estava sendo negligente com ela. Então, eles saíam, falavam por duas horas sobre a vida (Ela conseguiu um emprego de professora de sexta série. Que ótimo.), ele dava um presente a ela, então ele a levava pra sua casa, e, na manhã seguinte, quando acordasse com uma das mãos abraçando o corpo desta, coberto apenas com um lençol, acharia que as coisas continuavam tão normais quanto sempre, e voltaria à grande carreira que um dia teria. Quando conseguiu seu primeiro emprego, como sub-gerente de finanças de uma pequena empresa, contou primeiro pra ela. Não podia estar sempre ali, mas ainda assim gostava muito da namorada. Então, quando foi promovido, três meses depois (as coisas estavam caminhando rápido!), pediu-a em casamento, o que esta aceitou prontamente, com direito a lágrimas e abraços e beijos. Não saíram em lua-de-mel “Porque, claro, ainda não dá pra pagar a lua-de-mel perfeita”. Mas prometeu que, daqui a um tempo, pagaria uma ótima, nada abaixo de Paris. E ela entendeu.

A tal lua-de-mel em Paris realmente veio. Mais ou menos um ano depois. Foi uma semana (“Entenda, eu não posso ficar tanto tempo assim fora do meu trabalho”.) de todo o dinheiro que ele pôde e quis gastar. Uma semana de tudo que ela quisesse fazer a respeito de compras, com direito a sexo uma vez por dia, quando se cansassem de tanto beber champagne e dizerem o quanto a cidade-luz brilhava mais a cada copo, “então vamos pedir mais um e vê-la resplandecer como nunca mais”. Ela voltou grávida, e ele, desesperado. Haviam gastado muito mais do que ele queria e podia (talvez as luzes tenham tornado todo aquele dinheiro mais fácil de gastar), e agora uma criança nasceria, e ele viveria debaixo da ponte de tantas contas a pagar. O dinheiro deu, e nasceu uma garotinha linda (“ela é a cara da mãe, e o cabelo tem o mesmo brilho negro-azulado do pai. Que coisa encantadora.”), que, durante um tempo (uns seis meses?), o tornou o mais próximo que jamais havia sido daqueles dias dos seus 18 anos, tendo contato com a esposa e a filha, como uma boa família feliz de comercial de margarina. Depois, ele arrumou outro emprego (por indicação de um antigo amigo de bebidas – o mesmo que o havia apresentado sua atual esposa.), numa firma bem maior e um salário uns quinhentos reais abaixo do seu atual (“nem tudo é perfeito, e vamos ter que viver sem aquele dinheiro”.). Desde então não mudou mais de emprego, e se empenhou ao máximo para melhorar cada vez mais em seu emprego. Ele era bem rápido, e logo logo havia crescido em duas posições na empresa, e logo logo, sua filha estava na escola, e logo logo, sua esposa estava grávida de novo.

Sua vida é perfeita”, diziam seus colegas de trabalho. Também achava. Claro, a falsa humildade e a educação o obrigavam a minimizar a coisa toda, mas achava sua vida uma perfeição enorme. Havia agora chegado, em menos de seis meses desde então, a mais uma promoção (a última. Cargo máximo em sua área, na empresa. Um salário invejável, deve-se acrescentar.). E sua filha agora já estava aprendendo as vogais, e sua esposa estava com dificuldades na gravidez. Foi hospitalizada (a primeira de muitas vezes a partir de então) em outubro, com sete meses, por graves dores. Acharam que podia ser o bebê. Não era. Os médicos declararam que, quem sabe, talvez fosse melhor não ter o bebê. Ela poderia morrer, e ele também. Ela preferiu ter (“sempre fui insistente. Não comece a reclamar depois de tantos anos.”). Ainda com sete meses de gestação, sentiu dores mais uma vez, e foi internada novamente. Agora, iria ao hospital uma vez por semana para garantir que estava tudo certo. Sua filha agora havia terminado o primeiro ano da pré-escola. Demitiu um funcionário pela primeira vez (e de certo modo a sensação era boa). Agora tinha pode pra fazer isso. Oito meses de gestação, e sua mulher passou uma semana e cinco dias no hospital (“tudo isso vai valer a pena quando ela nascer, você verá. Ela chuta tanto que às vezes eu queria que ela não chutasse”). Sua filha estava indo muito bem na escola e lia palavras simples com perfeição (“Talvez ela vá gostar de ler tanto quanto você gosta, querida. Talvez ela seja parecida em personalidade também.”).

Foi acordado de seus próprios pensamentos por uma enfermeira que entrou no quarto querendo aplicar um remédio. Aproveitou e saiu. Foi para a área aberta do hospital. E várias pessoas passavam nos corredores, enquanto ele percorria seu caminho. Umas preocupadas, outras andando normalmente. Umas felizes, umas enfaixadas, umas que eram impossíveis de se definir o que elas estava sentindo ou pensando. Umas de cadeira de rodas, uma ou outra chorando num canto. E quando finalmente chegou (era um lugar tão branco quanto o resto do hospital. Com um grande chafariz no meio, e umas poucas plantas perto de árvores. Um lugar totalmente frio que tentava dar uma falsa impressão de calma e tranquilidade, quando, a uns passos de distância, havia pessoas morrendo, chorando, sofrendo em silêncio. Sentou e ignorou isso.), acendeu um cigarro e se lembrou de todas as outras vezes que havia vindo ao hospital. Na primeira, chorou, se desesperou, com a idéia de perder a esposa. Na segunda, ficou apenas sentado, calado. Na segunda e terceira também (e na quarta falou de negócios ao telefones e despediu uma pessoa, quando deveria estar lá com ela, lhe dizia uma vozinha fraca na cabeça.). Depois disso não lembrava de mais nada que havia feito nas últimas vezes. Já havia duas semanas que ela estava lá. E mais ou menos três que ela estava à beira da morte. Os outros dias havia passado em casa, os pais tentando explicar à filha o que estava acontecendo com mamãe e que ela podia não voltar. Que seria melhor pra mamãe que fosse assim. E que mamãe a amava muito e estaria com ela quando fosse. Certas vezes (acabara de acender mais um cigarro), a porta do quarto entreaberta o fez ver a esposa chorando. Mas alguma falta de coragem aparecia nele para ir lá falar com ela. Talvez por não saber o que dizer (ou talvez porque haviam se tornado estranhos um para o outro). A filha recém-nascida não era muito parecida com ela nem com ele. Era mais uma mistura dos dois. A esposa não podia cuidar dela, pois, após o parto delicado, sua saúde havia piorado ainda mais. Não conseguia dar leite, e não tinha tanta energia pra cuidar de uma criança. Tiveram que chamar uma babá. Problemas na empresa fizeram-no impossibilitado de ficar tão junto delas quanto havia ficado no nascimento da primeira filha, mas voltava pra casa todo dia mais cedo (porque havia parado de sair com os amigos pra beber depois do turno depois de finalmente notar um pouco que tinha uma esposa que precisava dele). Quando desmaiou e foi para o hospital, não saiu mais de lá. Tanto ele quanto ela sabiam que era lá o último lugar onde ela ficaria. Que estava fraca demais para conseguir superar.

Quando deu por si, o segundo cigarro já havia acabado. Voltou para o quarto, e ela estava acordando. Sentou-se novamente. “Acho que não passa de hoje,”, disse ela, “e queria que você ficasse aqui. Até... você sabe.”. “Ficarei.”, disse ele. “Obrigada. Significa muito pra mim.”. Ela não olhava para ele enquanto falava, mas para o lençol demasiadamente branco. E ele teve a ligeira impressão de que ela estava tentando não chorar. A impressão foi satisfeita quando ele, olhando também para o lençol, viu algumas gotas caírem. “Sinto muito”, disse ela. “Não gostaria de parecer assim fraca.”. “Você não é fraca”, respondeu ele, “Você aguentou isso tudo como pôde, e eu diria que o fez muito bem.”. “Queria ter podido mais que isso. Queria ver as meninas crescerem.”. Então ele a abraçou. Provavelmente não a abraçava de um modo mais amigo e confortante fazia muitos anos. “De certa forma,”, disse, ainda a abraçando, “você verá.”. “Acho que sim.”, respondeu ela, o abraçando o mais forte que podia (o que, nesse estado, não era muito). “Foram bons momentos, os que nós tivemos. Desde sempre. De vez em quando eu quis que você estivesse ali mais vezes, mas aí eu via o quanto isso era egoísta, que você estava ocupado cuidando de mim. Obrigada por ter feito isso. Eu não queria te dar esse trabalho todo”. De repente, se sentiu mais pesado que nunca. Ela tomara sua negligência como cuidado. E, pela paz da alma da companheira, não queria que ela perdesse essa imagem, embora tal imagem o tivesse feito se sentir um monstro. “Não deu trabalho.”, foi tudo que conseguiu falar. “Eu te amo”, disse ela. “Eu também.”, disse, mais sinceramente que havia dito em vários anos, mesmo que houvesse dito isso sempre, mecanicamente.

Ela realmente não passou daquele dia. Morreu mais ou menos quatro horas depois, dormindo. Quis se desculpar por tudo, mas preferiu que ela tivesse morrido inocente, sem a verdade que ele, naquele momento, via como suja, de si mesmo. Como namorado, como noivo, marido, mas principalmente como amigo. Decidiu não viver pensando num perdão que obviamente nunca viria. Viver em paz. Ao menos havia notado o que tinha feito, mesmo que fosse tarde demais. E, no dia seguinte, ele ia ter que chegar em casa e encarar aquela encantadora cópia de sua esposa, e talvez pudesse recomeçar. Seria melhor. Enquanto as enfermeiras chamavam o pessoal para retirá-la daquele quarto, ele deu-lhe um beijo, e colocou os lençóis por cima dela. Foi para o corredor, e acendeu mais um cigarro.

20080518

VIII


Estava na sala da casa dele. Quantas vezes já não havia estado lá? Mas dessa vez, provavelmente, era a última vez. O que ela ia fazer lá depois de ele não estar mais lá? Eles eram melhores amigos há tanto tempo, e ela, de repente, não tinha mais ele ao seu lado. Nessas horas ele estarai lá, não pra falar que ia passar, não para falar que não adiantaria nada ficar triste, mas para ficar parado ao lado dela, imóvel, em silêncio. Exatamente como ela estava fazendo. Por quê? Porque ele sabia que falar algo assim não adiantaria, e que era o melhor deixá-la em silêncio um pouco, mas, que mesmo assim, ela precisaria que ele estivesse lá com ela só por estar e por ele matar toda aquela sensação de vazio que ela tinha naquele momento. Ele saberia. Mas se ele pudesse fazer isso, ele não precisaria, porque ela não estaria ali se sentindo mais vazia do que ela já havia se sentido durante toda a vida. Não é como se não precisasse seguir em frente. O negócio é que "seguir em frente" foi sempre algo que ela havia feito apoiada nele. Não se sentia como se quisesse continuar. Não se isso significava que ela precisaria ir sem ele.

Nunca foi do tipo de pensa coisas como "Por que alguém tão bom como ele?", como estava sendo o pensamento de outras pessoas, mas estava pensando em por que essa falta que parecia estar dentro dela não sumia de uma vez. Sumia com ele, sumia sozinha, não importava, simplesmente sumisse e acabou. A idéia de não poder mais passar tempo com ele doía.
A última conversa deles havia sido a habitual. O engraçado era que, por mais habituais que elas fossem, eram necessárias, e não eram, de forma alguma, repetitivas.
Havia sido a última vez.
Como se nada fosse acontecer depois.
Ele simplesmente disse "Até amanhã." e foi embora. Amanhã. Quando vai chegar amanhã? "Sempre teremos o amanhã", não é? Pois bem, ela queria o amanhã dela que nunca mais ia vir.

Eles se conheciam há uns dez anos e tudo que ela sabia é que, por mais exagerado que isso parecesse, a vida dela havia recomeçado quando ele apareceu porque ele fez parte da vida dela de forma tão intensa que não chegfava a ser mais uma parte, simplesmente. Era uma vida nova a que ela levava. Com um novo ritmo, e liberdade para certas coisas que ela não havia mais ninguém para ter. Para coisas fundamentais, que a faziam se sentir mais livre. Libertar um lado que mudou a vida dela. Esse lado era o que fazia ele ainda meio que estar vivo. Era um lado que viveu por causa dele, e isso não ia acabar porque ele não estava mais lá.
Certos sofrimentos podem ser evitados. Ter uma necessidade profunda de alguém era algo que, obviamente, se enquadrava no que podia ser evitado. Mas essa proximidade pode fazer tão bem que nenhum sofrimento posterior tira a felicidade de, pela primeira vez, se sentir mais viva só porque alguém está ali com você. Isso não diminui a dor, mas a compensa.
Agora, estava deitada no sofá. Não era estar na casa dele que a fazia sentir como se ele ainda pudesse cumprir o "Até amanhã", mas era estar buscando certa força na idéia de que eles já estiveram ali e que o papel dele havia sido cumprido. Até o último momento, ele havia modificado a vida dela de forma única, que a faria seguir de forma totalmente diferente. Mesmo que sem ele. Ela não chorava, mas não era porque ela estava "tentando ser forte".

É porque foi necessário perder e seria muito pior não ter tido.

Se virou e olhou pro relógio. Faziam duas horas que ela estava lá e já eram três da manhã. Virou pro lado e dormiu. O seu amanhã começaria quando acordasse, de forma que ela pudesse fazer valer a pena todas as mudanças que ele havia feito.