20090221

XIV

Era isso. Ele e a porta, um de frente para o outro. A porta reluzia, em números dourados (“Mas certamente não de ouro”, pensou, tentando descontrair a própria mente) que anunciavam que aquele era o apartamento 506 daquele prédio. Logo acima dos números encontrava-se um olho mágico, este batendo aproximadamente abaixo do seu nariz (era alto, eu diria uns 1,80m.). Estava suando um pouco, e pensando se realmente valia a pena aquilo tudo. A primeira vez que tentou foi logo aos sete anos. Lembrava-se como se fosse ontem.
Ela estava sentada num canto com as amigas, mexendo e remexendo em roupas de bonecas loiras e com corpos a la Hollywood, falando no lugar das bonecas mudas coisas como “Vamos às compras, Laura?”, e “Claro, Antonia”. Chegou perto dela com uma iguana de plástico – todos os seus amigos adoravam aquela iguana, então, ela provavelmente também ia gostar. Ou ao menos era o que parecia em sua mente de sete anos. – e disse “oi”. Todas as três garotas que estavam sentadas ali (lembrava-se bem dela com o uniforme verde e branco da escola e seus cabelos na época muito cacheados e muito castanho-claros, e seus olhos muito escuros. Mas não conseguia se lembrar de absolutamente nada das outras) sairam correndo na mesma hora, quando viram a iguana. Então, desapontado, voltou para seus amigos, que sempre gritavam entusiasmados com a iguana. Talvez ela não tivesse tanta graça quanto aquela tal Barbie. Talvez ele devesse comprar um vestido rosa pra iguana. Mas ele não comprou, afinal.
Depois ele riria de tudo isso, mas, na hora, foi um baque para seu mundo juvenil. Demorou um tempo, talvez uns três dias, até ele reaceitar a iguana como sua companheira, pois, ao ver aquela cara de nojo dela, tudo pareceu muito sem sentido na iguana. Na iguana, em seu uniforme verde e branco, em seu cabelo loiro e arrumado pela mãe, em seus amigos, qualquer coisa que era legal parecera estranha e errada naquele momento. Ajeitou a camisa. Estava com suas roupas casuais, não queria parecer um imbecil, mas havia tomado cuidado com o que vestir hoje e tomado um bom banho. Queria estar apresentável. Ajeitou o pequeno rabo-de-cavalo loiro até bem pouco abaixo dos ombros e sacudiu a cabeça. Como havia sido mesmo a segunda vez? Ah! Foi a da bicicleta.
Já com dez anos, estavam na escola. 11:30 e o sinal acabara de tocar. Ela ajeitou sua mochila roxa e saiu da sala com as amigas (também não lembrava dessas, mas não eram as mesmas de três anos atrás.) bem antes dele. Quando foi sair da sala, notou um caderno pequeno de espirais embaixo da mesa dela. Era a oportunidade de uma vida. Poderia entregar a ela e tentar puxar algum assunto. Qualquer um. Não importava realmente. Correu até o caderno, e depois, correu atrás dela. Ela estava saindo com a bicicleta, e, mesmo não sendo exatamente um atleta de dez anos, ele correu rápido o bastante para chegar bem perto dela. Gritou seu nome, e ela olhou espantada para o lado. A bicicleta perdeu o equilíbrio, e ela caiu no chão. Começou a chorar, e ele a levou até a sua casa na bicicleta dela (mesmo que parecesse ridículo ele numa bicicleta rosa, aquilo não importava na hora), onde sua mãe cuidou dos machucados da menina. Ela ficou bastante ressentida e foi embora. E ele nem ao menos pôde entregar o caderno.
Ok, agora não parecia mais grande coisa aparecer lá com uma roupa fina. Já havia sido imbecil várias vezes desde que a conhecia, ela provavelmente nem notaria ou não ficaria surpresa. Deu uma risada sem-graça e olhou para o relógio. 13:57. Se daria mais três minutos. Bom, pensando pelo lado bom, as coisas melhoraram com o tempo. Da primeira vez, ele teve rejeição total. Da segunda vez, ele ao menos falou com ela. E, da terceira vez, já com 12 anos, começaram uma amizade.
Durante o intervalo, ele estava sentado enquanto ela pulava corda com mais umas quatro garotas e um garoto. E se ele fosse até lá e pulasse corda com eles? Ele podia aproveitar a chance. Nunca foi um perdedor na escola, só não era um dos mais famosos. Então, não iam ter motivos para exlcui-lo. Caminhou decidido, tão decidido que nem ao menos viu que a corda estava indo direto no rosto dele com toda a força e havia o derrubado. Ficou desmaiado por menos de 30 segundos, mas ela se ajoelhou do seu lado e perguntou se ele estava bem. Disse que “já esteve pior”, e ela o levou à enfermaria. Começaram a conversar ali, e, pelos próximos dez anos, não pararam.
Definitivamente, poderia ser pior! Resolveu se apoiar nessa esperança e deu uma última olhada no buquê de flores-do-campo. Limpou a garganta, ajeitou mais uma vez o cabelo e a roupa e tocou a campainha. Era agora ou nunca.

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