20090128

XIII

Ela respirou devagar, andando pé ante pé, esperando não ser ouvida da sala que ficava ligada ao corredor. Ele estava lá, e e ela não queria olhar pra cara dele. Se possível, nunca mais. Estava lá, com toda a majestosidade com o qual sempre se portava (e que a havia atraído), lendo um livro. Entrou no banheiro. Trancou a porta. O 'clunck' da chave com certeza o acordaria de seu livro, mas esperava que não acontecesse. Tirou as roupas correndo, anseando por entrar no chuveiro para poder dar uma desculpa para não abrir a porta. Ligou a água do modo mais barulhento que pôde, bem forte. E então, menos de trinta segundos depois, ouviu batidas na porta.
– Querida, é você aí, imagino. – a voz por trás da porta era calma, pausada, mas decidida. Uma voz como as de professores, mas bem mais baixa e calma. Manifestava uma alegria silenciosa. Esperou por uns vinte segundos.
– Querida? – ela sabia que ignorá-lo seria ruim. Então, com uma voz trêmula, respondeu.
– Sim?
– Não ouvi você levantar. E você não foi falar comigo. – um frio assassino percorreu a espinha da mulher. Ajeitou um pouco a temperatura da água, fingindo pra si que era culpa do chuveiro.
– Ah, estava precisando muito de um banho. Muito. Desculpe.
– Tudo bem. – então, sem nenhum aviso, a maçaneta girou. Então, instalou-se um silêncio absoluto, diante da porta fechada. Logo, ele voltara a falar. Dessa vez de forma mais séria. Uma pessoa qualquer interpretaria como mera surpresa ou falta de reação à situação, mas ela sabia, era muito mais que isso. – Você trancou a porta. –, disse.
– Oh, achei que não teria nenhum problema. Enfim, eu já estou acabando aqui, mesmo. Dez minutos. Ok?
– Claro, querida. Posso lembrar-lhe de uma coisa? – Ela temia quando ele dizia essas coisas. Sabia que ele havia ficado realmente sério, e sabia o que estava por vir.
– … Do quê?
– Eu amo você. Mais do que alguém vai amar você pelo resto da sua vida.
Gelou de novo. Sabia que ele esperava uma resposta. Uma resposta bem específica.
– Eu também te amo. –, disse, com a maior emoção que pôde. Terminou o banho, e saiu do banheiro, indo em direção ao quarto. Não trancou a porta. Sabia que a mesma desculpa sobre não ter problema não funcionaria duas vezes; aliás, não havia funcionado nenhuma, mas sabia que ele ficaria irritado dessa vez. Não deu outra. Logo em seguida, a porta abriu, e um homem alto, magro, com cabelos bem pretos e um olhar confiante e sério adentrou o quarto. Sentou-se na cama de casal, ainda desarrumada, enquanto ela se vestia.
– Então – disse ele – como dormiu, querida?
– Hm, normal. E você?
– Não muito bem.
– E... por quê?
– Ah, não sei. Mas estou bem cansado. Acho que vou dormir durante o dia, hoje.
– Mas nós não íamos sair?
– Íamos? Bom, então íamos. Acho que podemos fazer isso amanhã, não é?
– Ah, claro. – desanimou-se. Estava ansiosa por sair de casa. Não saía de casa fazia alguns dias, e respirar aquele mesmo ar estava começando a ficar perturbador.
– Tenho um presente pra você. –, disse ele, sem nem ao menos olhá-la.
– Um presente?
– É, espere um segundinho. – saiu do quarto, e ela aproveitou esse momento para pegar a escova de cabelo e começar a penteá-lo. Então, ele apareceu de novo, pela porta, com um estojo preto daqueles em que se guarda jóias, em forçato quadrado. Médio.
– Eu comprei ontem –, disse ele – mas esqueci de te dar. Veja só. Sentou-se ao lado dela na cama (a essa altura ela já havia acabado de pentear o cabelo, e olhava para o estojo.) Abriu o tal estojo, e, dentro dele, estava um lindo colar em prata, com pedras roxas. – Não é lindo? – disse ele. Num descuido, olhou-o nos olhos. Oh, droga. Ele estava com aquele olhar diferente. Ia começar tudo de novo. – Venha. Vamos ver como ele fica.
Se encaminharam até a porta do armário, e ele abriu-a. Dentro, havia um espelho, que ia de um pouco acima da cabeça dela a mais ou menos a cintura. Então, ele posicionou-se atrás dela e ajeitou seu cabelo castanho-claro pra frente, para poder mexer melhor no pescoço. Fechou o colar atrás e olhou-a, ainda de trás. Estava com um sorriso quase maldoso (quase?) no rosto.
– Sabia que ia ficar perfeito em você. Ele quase não aparece na sua pele. Ela é clara demais. Parce um monte de pedrinhas roxas coladas em você. Não que eu esteja reclamando disso. – disse a última frase com os lábios perto da orelha dela, olhando para o pescoço. Ah, antigamente, quando ele fazia essas coisas... ela sentia-se arrepiar por inteiro. Era bom. Agora, isso a assustava.
– Eu sei que você não está reclamando –, disse ela, tentando cortar o assunto. Ela não queria, ela estava cansada, enjoada, e, principalmente, com medo. Mas ele provavelmente sabia disso tudo, e não ligou nem um pouco. Começou a beijar o pescoço dela, indo pra base e para os ombros.
– Quantas vezes eu já disse que você é linda?
– Muitas – disse ela, seca. Então, ele fechou o armário.– E você não gosta? – Virou-a e olhou-a nos olhos. Aquele olhar possessivo, com algo que era mais uma obsessão que uma paixão, um olhar que ela julgava louco.
– Olha... eu tenho que... fazer o almoço. – tentou virar-se, mas ele segurou seu rosto.
– Por que você está me tratando assim, querida? Houve um tempo que você respondia ao meu toque tão melhor. E eu não te amei menos, só te amei mais e mais, e você, no entanto, não anda sendo tão receptiva quanto poderia. Você duvida do meu amor? – ele começara a trazê-la para perto da cama, e então, deitou-a e deitou-se por cima, olhando fixamente nos olhos dela.
– Não. – e realmente não duvidava. Ele a amava, mas era de um modo possessivo que ela não conseguia aguentar. Era de um modo muito maior do que um simples amor com muitos ciúmes. Muito, muito maior.
– Eu também não duvido do seu. Mas você talvez duvide. Eu te dou uma vida tão confortável, eu amo você mais do que todo mundo, eu só preciso de você. Mais nada. E sabe, você disse que me amava. E um amor de verdade é pra sempre. Você e eu vamos nos amar pra sempre, não vamos? Você vai me amar pra sempre? Porque eu sei que eu vou. Eu não sobreviveria sem você. – estreitou os olhos olhando pra ela.
– Ah. Eu sei. – Então ele sorriu. Um sorriso franco, um sorriso largo, um sorriso tão louco quanto todo o resto.
– Que bom, querida. – então, ele beijou-a.

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