20090109

XII (teoricamente)

Esses textos são velhos, mas nunca lembrei-me de colocá-los aqui. Não gosto particularmente do primeiro, e não tenho muita opinião sobre o segundo, mas...

A

Quando ele chegou com aquele sorriso largo falando que havia tido saudades, me enchendo de beijos, eu ri um pouco e falei que também me sentia assim. Aquele sorriso imutavelmente largo. Aquele sorriso foi uma das coisas, que no começo, mais me atraiu. Parecia tão bonito, tão sincero, tão feliz. Agora parecia simplesmente um sorriso largo de uma forma que me irritava levemente.
Há duas semanas, ele tinha ido viajar com a família para a praia, passar as férias de meio de ano. Foi uma época que eu simplesmente esqueci que tinha um noivo. Esqueci que eu tinha um dia conhecido um cara chamado Henrique, que fazia Ciência da computação junto comigo, que eu tinha conhecido ele há um ano e meio, começado a namorar há dez meses e ele havia me pedido em noivado há três, e ele era perfeito. Simplesmente perfeito. Em absolutamente tudo. Namorado, pessoa, tudo que ele poderia ser ele era. Não era aquela perfeição escancarada, mas era a perfeição que chamariam de perfeição nos defeitos. Era o tal príncipezinho encantado que toda garota de seis a quarenta e seis anos quer. Levemente ciumento. Carinhoso. Amigo. Divertido. Independente. Nunca era do tipo que enchia o saco, ele era cômodo. Sempre que você estivesse se sentindo com vontade de ter um namorado, ele estava lá. É como um prendedor de cabelo. Ali quando você achar conveniente, senão, é só jogá-lo pro lado e fim. Ele não vai te encher o saco se você sumir uma semana e, do nada, chamar-se pra dormir na casa dele. Muito, muito prático mesmo. Um cara que, apesar de se importar com os amigos, não era altamente rígido com isso, não ligando tanto assim. E ele tinha um senso de humor ótimo. Com um tom sarcástico que deixava-o interessante. Nessas coisas, pareciamos opostos.
Eu, sempre que aparecia, perguntava-o o que andava fazendo. Sentia ciúmes, mas não como o meu namorado amado. Sentia isso como o tal prendedor de cabelo, mas o favorito. O que melhor prende. Não empreste-o, ou podem estragá-lo. Amava-o como uma coisa, não como uma pessoa. Eu própria via isso, mas preferia ignorar solenemente. Apesar disso, era meio capacho com os amigos. Era enganada fácil por esses, confiava fácil, se ferrava fácil. Eu tinha muitos, muitos problemas de amizade. Claro, sempre há os bons, mas ainda assim, boa parte das vezes, eu confiava nos errados. Erros que se repetiam, e repetiam. E quando diziam que eu "precisava prestar mais atenção nas pessoas que eu confiava", o ego meio que impedia de admitir-me a realidade, que não era por falta de aviso, não era por burrice. Era pra sempre poder falar quantos amigos confiáveis tinha. O quanto os amava. É, por mais ridículo que seja, eu ainda vangloriava dos amigos apesar de tudo, nunca me permitindo afirmar pra alguém (incluindo e principalmente eu) que apesar de eles serem uns merdas, eu era a pior por fingir colocá-los num pedestal que nem eu mesma achava que estava ali. Falsidade pura. A base de qualquer relação social estável.
Ele, principalmente, era sempre quem me falava que eu precisava ter mais cuidado com essas coisas. Bom, ele sempre foi tão sábio. Não inteligente. A inteligência era normal. Mas ele sabia das coisas, sabe? Ele sabia sempre o que fazer e tal. Dava inveja. Não, não era levezinha. Por um tempo foi, bastante. Eu confundia com admiração, até.
Afinal, ele era tudo que eu sempre quis ser.
Mas sei lá, com o tempo aconteciam aquelas coisas quando eu tentava me aproveitar de uma situação e dava errado, e ele, acima de um namorado, vinha como um amigo, me aconselhar pra não acontecer de novo. Será que ele realmente tinha fé em mim? Que eu pudesse mudar meu modo de agir? Não deveria. Eu sempre fui egoísta e orgulhosa. Muito.
Não se pode ter fé em pessoas egoístas e orgulhosas.
Uma hora elas vão acabar machucando você e você não sabe como elas vão fazer isso.
Ele, depois de tanta saudade, me convidou pra passar a noite na casa dele. O fim de semana. Aquele sorriso insistente e inquebrável. Um fim de semana todo.
Certo.
Quando chegou a hora de ir pra lá, ele passou aqui. Ele não tinha me avisado que ia, mas falou que deu vontade. Ah, por que não?
Enquanto conversávamos, ele perguntou como andava a Ana. minha melhor amiga há um mês. Não costuma durar mais que isso. Não comigo. "Brigamos", eu disse. Então ele perguntou o porquê. "Ah, basicamente ela tirou meu nome do trabalho da faculdade pra ficar com o crédito pra ela.". Eu sabia que ela ia fazer isso alguma hora. Então ele saiu falando que eu precisava tomar mais cuidado com isso, que além de tudo era coisa da faculdade e tal, e que eu não podia ter confiado nela do nada, e que eu já tinha idade pra saber disso e qualquer coisa assim. Bah. Então, ele perugntou por que eu fiz isso. "Isso o quê?", perguntei. E ele disse que era ter deixado com ela o trabalho e ter confiado um trabalho a ela do nada. Então, eu pensei. Foi impulso.
Eu sou impulsiva.
E egoísta.
E orgulhosa.
Maravilha. Não respondi.
Depois de uns dez minutos, ele falou de novo pra eu me cuidar. E eu disse "É. Você tá certo. Como de costume." e ele explicou rapidamente que eu era uma ótima pessoa, ele me amava, mas ainda assim, eu tinha um lado particularmente imaturo e que ele fazia isso e ficava parecendo meu pai, mas na verdade ele só queria que eu entendesse o que ele sabia que ia melhorar minha vida e que ele sabia o que ele estava falando, que não tinha problemas assim porque ele tomava cuidado com certas coisas.
"É. Você sempre toma. Você sabe das coisas."
Acho que ele notou um tom amargo na minha voz, porque ele simplesmente ficou sem jeito e calou a boca. Quando chegamos na casa dele, nós fizemos absolutamente nada, vendo TV juntos. Ele não fez questão de se aproximar de mim a princípio, porque acho que ele ainda estava receoso de eu ter me aborrecido, depois ele ficou mais perto de mim. não importava mais, ele podia ficar o quanto perto fosse. Eu não me importava realmente com o que ele fazia, não mais. Era uma rotina ocasional. Talvez fosse o sorriso.
Então, ele perguntou quem eu ia chamar pro casamento. "Sei lá. Todo mundo?". Ele perguntou se eu ia chamar até Ana. "É.". Então ele ficou um tempo sem falar nada, talvez esperando que eu continuasse. "E você?", eu perguntei com um falso tom interessado. Não estava nem aí pra quem ele ia ou deixaria de chamar. Ele falou dos amigos dele, e começou a falar do padrinho que ele tinha escolhido. Heitor. Conheceu na 3ª série e desde então são amigos. Melhores amigos. Eu o conheci por ele, inclusive. Então ele falou um pouco sobre ele e eu notei que eu não entendi nada. Eu não entendo muito bem essas amizades dele. As minhas podem ser podres, mas são as que eu tenho e as que eu entendo. Viva com as cobras e aprenderá a ser uma. Cobras não são outra coisa. Só cobras. Não sei se ele ainda esperaria também que eu entendesse. Acho que não.
Mais tarde, jantamos. Eu o ajudei a fazer alguma coisa, e depois de comer vendo um filme, eu fui lavar a louça. Então o meu celular tocou. Era a Ana. Dois dias depois do tal incidente do trabalho, ela me ligou perguntando se quero sair com ela terça pra fazer alguma coisa. "Claro", eu respondi, e desliguei. O entusiasmo jovial com o qual ela falou não fazia parecer que ela tinha feito algo como o que ela fez. E a tão pouco tempo. Então, ele perguntou quem era, achando que era o dele. Eu disse que era o meu e disse que era a Ana. Então ele ficou meio intrigado, e perguntou se era pra pedir desculpas. "Não. Pra me chamar pra ir no shopping com ela." e ele perguntou se eu tinha aceitado e eu disse que sim. Então, ele disse que eu devia me valorizar. Que eu não servia pra conversar com gente assim, falsa.
Eu ri internamente. Um pouco. Ele tinha uma idéia tão inocente de mim.
Que bonitinho da parte dele.
Então, ele foi até a cozinha e perguntou se eu ia pra lá ver o resto do filme antes de dormir. Eu disse que ia terminar de lavar as coisas, enquanto eu secava um facão que eu tinha usado pra cozinhar. Então, ele deu um beijo em mim e se virou. Eu me virei pra ele, antes de ele sair da cozinha, fui na direção dele, e o sangue respingou levemente no chão quando eu enfiei rápido o facão na parte de trás do pescoço dele e tirei tão rápido quanto coloquei. Ele caiu pra frente, eu acho. Não sei. Eu só fui até a pia, lavei ele, e saí. E decidi ir pra minha casa. A prova final do meu egoísmo foi totalmente normal. Tão sem emoção quanto qualquer outra parte do dia. E eu saí com as minhas coisas, pegar um táxi e fim. Eu não tenho bem certeza de por que eu fiz aquilo, mas me senti como fazendo aquilo. E fiz. Não podemos esquecer que, além de egoísta e orgulhosa, eu sou impulsiva.
B

Oito horas e quarenta e oito minutos da noite.
Quarenta e dois minutos para a saída do vôo que me tiraria dali, para não voltar mais.
É impressionante o quanto aeroportos podem ser nostálgicos. Quer dizer, neles você é capaz de imaginar facilmente tudo que aconteceu e que não aconteceu. E quem sabe até, se você se esforçar, o que aconteceu mesmo do que aconteceu. Lá estava eu. Com um café na mão. Esperando. Esperando e esperando. Será que alguém saberia pra onde eu fui? Provavelmente não. Gostariam de saber, mas provavelmente não.
Quando eu decidi virar uma pessoa "de família" e realmente criar juízo, e me casei, eu não imaginei que fosse acabar assim. Eu estou, literalmente, abandonando ela. Vai ser melhor assim. Melhor não pra mim. Mas pra ela. Quer dizer, eu nunca fui o marido que ela tanto quis. A minha própria mente me forçava a viver com outros valores. Eu não fui confiável, eu não fui o amigo que ela esperava de um marido. Eu não fui nem o marido que ela esperava de um marido. Quantas vezes eu esperei que ela me chamasse de egoísta, quando eu aparecia em casa sem o dinheiro, o dinheiro que era necessário pras coisas mais básicas. O dinheiro que ninguém sabia (e que Você queira que eles nunca saibam.) onde eu gastava. Bom, provavelmente até sabiam. O que se espera de um marido que nunca foi um marido? Ela nunca me recriminou. Ela nunca reclamou. Ela só ficou quieta com aquele instigante ar triste, e eu me comovia com isso. Mesmo. Mas não fazia nada sobre isso. Aliás, eu fazia.
Eu fazia o que eu sempre fiz.
Eu observava.
Como a esposa silenciosa que ela era há três anos, no Inferno conjugal que eu a forçava a ter, com o silêncio que as minhas ações insistentemente tentavam destruir para dar vez à raiva, e nunca abalaram. Certa vez, eu cheguei em casa depois de dois dias, de manhã. Ela disse apenas "O açúcar acabou. Posso colocar adoçante no seu café?". Eu gritei com ela, gritei para que reagisse. Perguntei por que não reagia. Por que não fazia nada. E ela, com seu eterno silêncio, disse "vou deixar o adoçante na mesa caso mude de idéia." e saiu da cozinha. O tal Inferno conjugal era sempre aparente. Era uma prisão sem paredes. Você fica preso ali pela força insistente do comodismo. Ou de alguma outra coisa. Mas eu nunca falei uma palavra pra ela que indicasse que eu mandava nela. Eu nunca bati nela. Eu nunca sequer encostei nela. Ela se manteve ali, no silêncio. Ela sempre se mantinha ali. E acabou de dar oito horas e cinquenta minutos.
Agora eu me lembrava claramente do rosto dela no dia que eu "discuti" com ela. De algum modo, eu nunca conseguia me lembrar. Naquele dia eu havia ficado tão, tão puto da vida com ela. Não, de modo algum eu cogitei bater nela ou coisa parecida. O silêncio dela era irritante e ao mesmo tempo, instigante. Ao mesmo tempo que ver a reação dela me dava uma espécie de prazer meio "maníaco" por saber que aquele silêncio era meu, que era um comportamento que ela tinha por minha causa, que não existiria sem mim, parecia faltar alguma coisa. Outra coisa que pode ser julgada "estranha" é a raiva absurda que eu tinha desse silêncio. Faltava a reação. A raiva. Eu queria vê-la com raiva nem que pra isso eu tivesse que foder a vida dela até ela não poder mais ficar pior. Todo o desafio de derrotar o silêncio. O silêncio indiferente. De mudar a natureza que eu próprio forcei. É como brincar de Deus. Você vai lá. Você modifica uma natureza. Ela fica do jeito que você quis. Não é satisfatório? Depois, quando você começa a enjoar dessa natureza, é hora de mudá-la. Mas quando você crava uma natureza fundo demais, fica difícil mudar. Eu sei disso. Eu tentei todo dia. Eu passei de Deus a mortal. Do que cria pro que tenta criar.

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