Enquanto voltava da farmácia, bateu-lhe uma nostalgia incrível dos dias antigos. Os dias em que ele acordava mais cedo para trabalhar, com a esposa já de pé, comendo. Ela lhe diria “O café está quente – fiz a menos de dez minutos”, e ele tomaria café com ela antes de ir tomar um banho e ir para o trabalho. E, quando ele chegasse, iria para a biblioteca de sua casa e iria abrir a sacada. Chegava no fim da tarde, e sempre podia ver a luz do pôr-do-sol entrar no cômodo, deixando um brilho alaranjado no mesmo.
Abriu a porta, sem fazer muito barulho, e pôs a sacola de compras na bancada da cozinha. Abriu devagar a porta do quarto. A esposa estava dormindo. Toda aquela parafernália nela, aqueles tubos para respirar, aquele ar doente do quarto. Voltou à cozinha, separou os remédios dela (ultimamente, ela havia gastado tanto dinheiro com remédios. Mais até do que o normal. - havia mudado de emprego, pra poder ir pra ele mais tarde, já que na parte da manhã ele precisava cuidar dela, e agora ganhava menos, e isso dificultava ainda mais as coisas.) e colocou no quarto, em cima do criado-mudo. Passou na frente da biblioteca, e pensou em pegar um livro pra ler. Talvez cochilar um pouco, e depois, tomar um banho. Fazia algum tempo que ela estava na casa deles, e não no hospital. Sabiam que não ia ter jeito, então ela não queria passar seu tempo lá. E ele tentava mantê-la o mais confortável e feliz que pudesse. Escolheu um livro qualquer. Estava cansado, sabia que não ia demorar pra dormir. Olhou em direção à sacada, com a sensação de nostalgia ainda forte, e abriu-a, pela primeira vez em dois anos e meio. Respirou o ar suburbano um pouco mais limpo do fim de tarde, e sorriu para o céu alaranjado que ele tanto conhecia.
Deitou-se no sofá, e depois de menos de quatro páginas, dormiu, com o brilho do sol poente manchando-lhe o rosto.

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