Estava na sala da casa dele. Quantas vezes já não havia estado lá? Mas dessa vez, provavelmente, era a última vez. O que ela ia fazer lá depois de ele não estar mais lá? Eles eram melhores amigos há tanto tempo, e ela, de repente, não tinha mais ele ao seu lado. Nessas horas ele estarai lá, não pra falar que ia passar, não para falar que não adiantaria nada ficar triste, mas para ficar parado ao lado dela, imóvel, em silêncio. Exatamente como ela estava fazendo. Por quê? Porque ele sabia que falar algo assim não adiantaria, e que era o melhor deixá-la em silêncio um pouco, mas, que mesmo assim, ela precisaria que ele estivesse lá com ela só por estar e por ele matar toda aquela sensação de vazio que ela tinha naquele momento. Ele saberia. Mas se ele pudesse fazer isso, ele não precisaria, porque ela não estaria ali se sentindo mais vazia do que ela já havia se sentido durante toda a vida. Não é como se não precisasse seguir em frente. O negócio é que "seguir em frente" foi sempre algo que ela havia feito apoiada nele. Não se sentia como se quisesse continuar. Não se isso significava que ela precisaria ir sem ele.
Nunca foi do tipo de pensa coisas como "Por que alguém tão bom como ele?", como estava sendo o pensamento de outras pessoas, mas estava pensando em por que essa falta que parecia estar dentro dela não sumia de uma vez. Sumia com ele, sumia sozinha, não importava, simplesmente sumisse e acabou. A idéia de não poder mais passar tempo com ele doía.
A última conversa deles havia sido a habitual. O engraçado era que, por mais habituais que elas fossem, eram necessárias, e não eram, de forma alguma, repetitivas.
Havia sido a última vez.
Como se nada fosse acontecer depois.
Ele simplesmente disse "Até amanhã." e foi embora. Amanhã. Quando vai chegar amanhã? "Sempre teremos o amanhã", não é? Pois bem, ela queria o amanhã dela que nunca mais ia vir.
Eles se conheciam há uns dez anos e tudo que ela sabia é que, por mais exagerado que isso parecesse, a vida dela havia recomeçado quando ele apareceu porque ele fez parte da vida dela de forma tão intensa que não chegfava a ser mais uma parte, simplesmente. Era uma vida nova a que ela levava. Com um novo ritmo, e liberdade para certas coisas que ela não havia mais ninguém para ter. Para coisas fundamentais, que a faziam se sentir mais livre. Libertar um lado que mudou a vida dela. Esse lado era o que fazia ele ainda meio que estar vivo. Era um lado que viveu por causa dele, e isso não ia acabar porque ele não estava mais lá.
Certos sofrimentos podem ser evitados. Ter uma necessidade profunda de alguém era algo que, obviamente, se enquadrava no que podia ser evitado. Mas essa proximidade pode fazer tão bem que nenhum sofrimento posterior tira a felicidade de, pela primeira vez, se sentir mais viva só porque alguém está ali com você. Isso não diminui a dor, mas a compensa.
Agora, estava deitada no sofá. Não era estar na casa dele que a fazia sentir como se ele ainda pudesse cumprir o "Até amanhã", mas era estar buscando certa força na idéia de que eles já estiveram ali e que o papel dele havia sido cumprido. Até o último momento, ele havia modificado a vida dela de forma única, que a faria seguir de forma totalmente diferente. Mesmo que sem ele. Ela não chorava, mas não era porque ela estava "tentando ser forte".
É porque foi necessário perder e seria muito pior não ter tido.
Se virou e olhou pro relógio. Faziam duas horas que ela estava lá e já eram três da manhã. Virou pro lado e dormiu. O seu amanhã começaria quando acordasse, de forma que ela pudesse fazer valer a pena todas as mudanças que ele havia feito.
20080518
VIII
20080517
VII
Quando pegou a sexta xícara de café, notou que já havia escrito aproximadamente oitenta páginas. Estava sendo produtivo. Sentada na frente de um computador, parecia que nada poderia deixá-la mais compenetrada do que escrever. Escrever, escrever, escrever. Só isso. Aquele ia ser seu terceiro livro naquele ano, e estavam apenas em Julho. Quer dizer, seu terceiro best-seller. Ela não se surpreendia mais com os títulos de best-sellers vindo rápido. Era costumeiro. Ela era considerada uma escritora em seu ápice, com carreira internacional. Seus livros eram cheios de vidas não tão perfeitas assim, mas que no final sempre soavam melhores do que o mundo podia permitir. Não que ela não tivesse uma vida muito assim. Uma escritora de MUITO sucesso. Casada com um diretor de teatro muito reconhecido (e um marido ótimo), e com uma filha absolutamente perfeita. Diziam (porque como um casal consideravelmente na mídia, sempre existem as opiniões populares sobre sua vida, em todos os ângulos. O preço a se pagar.) ter puxado o melhor lado de cada um dos dois(e, de fato, ela parecia um anjinho, com o tosto rosado e fino, e o cabelo castanho avermelhado e os olhos azuis. Ainda que tivesse sete anos, a beleza já era bem visível.), e uma casa enorme num bairro de casas caras. A casa dos sonhos de qualquer um. Ela trabalhava quando queria, tendo considerável liberdade sobre suas atitutes quanto ao horário. Parecia a vida perfeita, e ela, de fato, ouvia isso sempre.
Os livros que ela escrevia sempre contavam histórias de pessoas que depois de certas coisas que aconteciam errado, conheciam alguém que fazia tudo melhorar. O tal amor verdadeiro, como dizem. No final, mesmo com os seus defeitos de enfeite, a vida deles parecia linda e emocionante.
Esse tipo de livro sempre fazia um sucesso incrível.
Ela sabia bem o porquê. As mesmas pessoas que a falavam com tanta felicidade o quanto sua vida era perfeita eram as pessoas que esbanjavam a infelicidade com as próprias, e pareciam se confortar com ler livros que tudo ficava bem no fim. Parecia que isso, quem sabe, fosse acontecer um dia com elas também.
Aquela esperança inútil em coisas surreais era tão popular e vendia tão bem.
Isso de certa forma era bem comum e ela sabia disso, e se sentia até meio culpada pela sua vida, sendo tão perfeita assim, de acordo com os outros, lhe parecer tão tediosa. Odiava seus livros e não os lia de forma alguma. Sua forma de escrever a enojava. Aquele lindo dia com uma filha que sempre estava rindo e um marido que faria de tudo por ela e não cansava de dizer o quando a amavam eram chatos. Ela, às vezes, tinha a impressão que se prendia a tudo isso por medo. Medo de cair na nuvenzinha branca e o chão ser duro demais pra ela. Então, ela ainda vivia sua vida perfeita.
Olhou seu novo romance. Era sobre uma mulher que, com seus 26 anos, recém-saída do Egito, estava agora no Canadá e trabalhava como vendedora de sapatos, e conhecia um banqueiro que parecia fazer o impossível, que era olhar pra alguém como ela.
Talvez fosse o café. O fato é que alguma coisa naquele texto a soou tão... Quer dizer, tão...
Tão...
Tão o quê?
"Bom,", pensou. E não pensou mais nada; selecionou tudo e apertou Backspace. E começou a escrever. Escrever o quê, nem ela sabia. Ela deixava tudo com os dedos, que saíam no teclado sozinhos, e rápidos. Até mais que o normal. E teve a impressão que esse, talvez, não fosse ser um best-seller, mas provavelmente seria o único livro seu que voltaria a ler.
E continuou escrevendo. Sem nem notar que não tinha mais café.
20080515
VI
Sentado na frente de um monitor de um notebook em uma cama, tentava relaxar jogando um jogo de Paciência. Não era bem o seu jeito jogar cartas, mas na verdade nada do que andava fazendo mesmo fazia muito sentido então não era algo a se importar. Com um CD do Counting Crows, era um pouco mais simples relaxar. Tudo parecia tão alterado desde que havia voltado para sua cinematográfica família cheia de problemas. No momento, a casa estava num silêncio mortal. Quebrado apenas pelo barulho exterior de umas crianças ali perto brincando de pique-esconde. Já estava escuro, e, fora as crianças, não havia um barulho em toda a rua. Provavelmente eram as filhas do vizinho duas casas pra esquerda, e, como já eram quase nove horas, provavelmente já já elas voltariam pra casa e a rua se prenderia de vez ao silêncio. Parecia tudo tão organizado há um tempo, era o único pensamento que entrava na cabeça dele entre uma música e outra. Nunca foram a família do ano. Verdade. Sua mãe sempre fora meio depressiva. Seu pai, sempre a deixando pior, tanto com atitudes como palavras. (Ou palavras que funcionavam quase que como atitudes.) A irmã, desde os treze anos, andava com um grupo de viciados nas mais diversas drogas, e o pai colocava a culpa no teatro, pois, "coisa assim só poderia dar numa sapatão que anda com um bando de cheirado infeliz". Nunca entendeu bem o ódio que ele tinha da família e inclusive dele também, sempre falando o quanto deixava a vida passar sendo um inútil, e que não viveria um dia fora daquela casa. Talvez, só talvez, o pai estivesse tão insatisfeito quanto eles. E não descontava isso em choro e remédios, como a esposa, ou em drogas e tentativas constantes de suicídio, como a filha. A casa sempre tinha um ar meio pesado (meio?), e durante muito tempo, eles meio que se aturaram. Saiu. Foi estudar. Quando voltou, numas férias, um ano depois, descobriu que a "sapatão viciada" da sua irmã havia tido dois meses antes uma briga com o pai, porque ela havia de fato consumido um bocado de cocaína e foi pro hospital. Pelo que ouviu, várias coisas como "vagabunda", "sapatão filha da puta", e "anormal depressiva" foram ouvidas do lado de fora da casa, até que a dita saiu da casa, bem machucada, pegou o carro e saiu arrancando com ele pela rua. O que foi feito dela, ninguém sabe, por ali. Algo, naquele "instinto de irmão", o dizia que ela estava realmente enfraquecida por causa das depressões e das drogas. A idéia de que a irmã tinha morrido sozinha Deus sabe onde o deixava mal, mas o tal instinto não o indicava outra coisa. Talvez ela já soubesse disso. Havia um olhar estranho no rosto dela quando ela saiu. Era o olhar dela vazio, quando ela sentia que mais nada prestava. Ele conhecia isso. No geral isso vinha seguido de tentativas de suicídio.
A mãe, depois de tanta coisa com o pai, estava cada dia mais e mais cansada. Talvez ela aguentasse aquilo pelo bem de uma família que ela insistia em tentar mostrar pra si (porque para os outros, isso já era bem tarde.) que não havía ruído, quando nem as ruínas restavam mais. mas agora, ela não estava mais cansada do pai. Não havia como estar. Ele, quando voltou, não viu mais o pai lá. Não recebeu uma justificação, como da irmã, mas sim um silêncio que ainda não havia sido quebrado. Quem sabe, ele nunca fosse saber o que houve com ele. Quem sabe, a mãe podia lhe contar. Duvidava. Mas sabe, não importava. A casa sem o pai e a irmã era outro ambiente. Mas não importava justamente por isso. Porque ele tinha plena consciência de que havia crescido num lugar que, quando mais distante, melhor. Agora eram só ele e a mãe. O que era praticamente só ele. Porque ela, como estava cansada, não falava mais muito e costumava se resumir a seu quarto. (Hm, não que ela não fosse meio assim antes. Meio.) A última conversa que eles haviam tido tinha sido em Dezembro (preferiu ficar por lá pra cuidar da mãe.), quando ela lhe perguntou dos estudos. De resto, nada. Era uma casa morta. Como de costume.
Olhou para o relógio, eram 00:32. A mãe tomava o remédio 00:30. Desceu da cama e foi em direção ao quarto dela. Só mais uma rotina.
20080502
V
Sentado no escritório, uma lâmpada fraca acesa e papéis na mão. Os lucros da empresa. A empresa ao qual ele chefiava. Outro ótimo mês e a empresa só fazia crescer. Mais e mais cada vez. Lembrou da euforia de primeiro momento quando isso tudo começou. Todos os investimentos, tudo que eletinha feito pela empresa. Tudo muito bem. Uma das maiores seguradoras do estado. Muito bom. Muito bom mesmo. Deu um sorriso fraco. Se sentiu tão ingrato. Quer dizer, a maioria das pessoas já se diria satisfeita em ter um pouco daquela quantia astonômica que aparecia no lucro (já descontados os gastos) que ele tivera e... Não parecia isso tudo. Não o dinheiro, mas a felicidade.
Faltava algo. O que era? Ele tinha uma família, uma família dos sonhos. Uma filha que era linda, que tinha um namorado com uma boa família, que estudava na mesma faculdade que ela e ia ser médico, e ela ia ser uma engenheira, dois filhos gêmeos que eram, apesar de hiperativos, bem obedientes, e bastante apegados à família, e claro, ele havia escolhido a esposa perfeita. A que cuidava de tudo em casa sorrindo. A que não se importava com ficar com as crianças enquanto ele ia trabalhar. A que não ficava reclamando. A que sempre estava ali, pronta ao que fosse. E quando haviam problemas, pronta para tentar consolá-lo. A que cuidava dele todo dia com a energia do primeiro. Uma casa absolutamente perfeita, linda, num lugar cobiçado. A rotina não tinha surpresas. Era tudo sistemático. Ele acordava, se arrumava para o trabalho (com a roupa já separada pela empregada, sem uma dobra fora do lugar.), tomava o café que já estava posto pela mulher. A beijava, e ia para o trabalho. Quando voltava, aproximadamente onze e meia da noite, sua mulher colocava-lhe o jantar, e depois disso, ele ia tomar um banho e depois eles viam um pouco de tevê antes de se deitarem. Caso estivesse um pouco estressado, sua mulher sempre cuidava disso. Ela parecia saber quando ele precisava dela. E saber sempre para quê. Para sua quebra de rotina, tinha sua secretária, Rosa, que sempre almoçava com ele e eles iam juntos para um motel caro meio longe dali. Nunca ninguém notava. Os que notavam, se os havia, não falavam nada. Era a parte "interessante" do dia. Mais interessante pra ela do que pra ele, já que também acabou virando uma coisa sistematizada. Tudo corria muito bem. Perfeitamente bem. Mas o que faltava? O que poderia ser essa maldita coisa que fazia parecer que tudo era tão vago? Simples demais. Sem graça demais. Nulo demais. Chato demais.
Não era nada de importante.
Nada daquilo?
Sua esposa? Seus filhos? Sua empresa? A casa? A secretária? O respeito? O dinheiro? A maldita vida perfeita do qual todo dia acabavam falando para ele? Não, nada disso era bom. Não era o que ele precisava. Não era TUDO que ele precisava. Girou na cadeira. Não haiva mais ninguém trabalhando, só os faxineiros, que não iam falar nada. Só limpariam a sala dele amanhã de manhã, então, sem temer escândalos, jogou um peso de papel contra a janela que ficava atrás de sua mesa. Ele estilhaçou boa parte do vidro e foi em direção à rua, tão pequena, dali de cima. Nem parecia o centro. Precisava achar a resposta. Precisava achar uma forma de ter tudo que era necessário. Levantou-se de um impulso da cadeira e foi andar pelo escritório. Foi até uma gaveta na estante. Papéis, papéis, canetas, lembretes, uma gravata (o que isso está fazendo aqui?), ah. Uma caixa. Abriu-a. Um pote. Calmantes. Pegou-os e foi até o bebedouro da sua sala. Tomou cinco de uma vez, não queria ficar muito tempo de pé. Foi até sua cadeira de novo. Sentou-se e virou pra janela. Estava estressado. Não queria, como das outras vezes, ir pra sua casa, jantar, tomar um banho e transar com a sua tal mulher perfeita. Ok, ela não era tão perfeita assim. Ele sabia que ela o traía com um maldito vendedor que tinha uma loja ao lado e que os gêmeoszinhos lá que não paravam de pular por aí, gritar, quebrar coisas, eram dele. Fodam-se eles. Não que eles já não o fizessem, haha. Deu uma risada meio irônica, alta demais pra parecer normal. Sentiu o vento que vinha da parte quebrada da janela. Que vento maravilhoso. Parecia bom demais, aquele vento. Frio. Maravilha. Nem se preocupou em colocar o copo na mesa. Largou-o, ele caiu no chão. Não estava mais nem aí. Adormeceu nem ao menos notar.
