Olhando-se no espelho, pensou em como havia se tornado aquele monstro. As pessoas da escola estavam certas, ela não passava de uma obesa. Nada além disso. Não era uma casca vazia, mas só porque essa tal casca estava cheia de gordura. Podia ver cada pedaço de si mesma, da cabeça aos pés, como uma grande almôndega. E provavelmente o mundo todo a via assim, já que o modo como eles a tratavam era como se ela fosse uma almôndega. Uma almôndega estragada. Uma coisa feia e ruim, que devia ser jogada no lixo, e não havia nenhum problema nisso, já que a tal coisa não sentiria nada. Era só um pedaço de carne. E era exatamente isso que faziam com ela. Jogavam-na no lixo, ao modo deles.
Não tinha amigos e não culpava ninguém por isso. Quando você anda com um monstro, você não somente anda com ele. Você se torna um, também. É como se um hipopótamo de 50 metros invadisse a linda cidade de Utopialândia, e algum cidadão qualquer decidisse que o bicho devia ser tratado com amor. O que o resto faria? O julgaria um maluco, um ser que devia ser expurgado antes que a febre que ele possuía infectasse o restante.
Mas ela se sentia amada, sim.
Por mais incrível que parecesse, ela era amada por algo. Mesmo que nem ela entendesse o porquê de esse algo gostar dela, ela era amada por algo e isso era um fato. Ela tinha um porquinho-da-índia, Fernando, e ele realmente não tinha medo de chegar perto dela. O que era praticamente inconcebível, porque, quer dizer, se ela fosse Fernando, ela teria muito medo. Porque aquela coisa poderia esmagá-lo a qualquer momento. Mas não, ele ficava perto dela e ela cuidava dele do melhor modo possível. Ele era a única coisa que ela tinha, e ela não queria desperdiçá-lo. Tratá-lo mal. Não, ela tratava-o o melhor impossível.
Havia acabado de chegar da escola, de mais um dia de humilhação – o pior dia da semana pra ela, quinta-feira, dia de educação física – e ainda não havia ido falar com Fernando. Saiu correndo para o quarto, com seus pesados passos maltratando o chão. Abriu a porta, e tomou um susto. A gaiola estava ali; Fernando não. Foi procurar a mãe imediatamente e perguntou-lhe o que havia acontecido com ele.
“Filha, eu gostaria que você pensasse assim: ele era bem velho, e viveu bem mais que um porquinho-da-índia normal. Então...” Interrompeu-a. Quis saber o que ela estava querendo dizer. “O que eu quero dizer é”, disse, “Fernando morreu, filha. Faz umas três horas. Se quiser, podemos ir comprar um novo amanhã mesmo.”. Não conseguiu responder. Virou-se, entrou no quarto e trancou a porta.
Agora ninguém mais a aceitaria. Ninguém mais a amaria. Ninguém mais apreciaria sua companhia e cuidados. Estava sozinha no mundo, e dessa vez, era definitivamente. Chorou sentada na cama por mais de uma hora, quando se virou para o lado. Um espelho. Mais um desses malditos. Viu aquela coisa bestial e vermelha, com feições distorcidas (mais até que o normal) pelo choro. Banhas saindo até de onde ela nem sabia que podia ter banhas. Sentiu-se mais feia que nunca. Feia. Gorda.
Gorda e sozinha.
Então, depois de alguns segundos se olhando, virou-se, destrancou a porta. Precisava comer alguma coisa. Ia comer pra esquecer, e pra ser mais gorda do que sozinha novamente.
Não tinha amigos e não culpava ninguém por isso. Quando você anda com um monstro, você não somente anda com ele. Você se torna um, também. É como se um hipopótamo de 50 metros invadisse a linda cidade de Utopialândia, e algum cidadão qualquer decidisse que o bicho devia ser tratado com amor. O que o resto faria? O julgaria um maluco, um ser que devia ser expurgado antes que a febre que ele possuía infectasse o restante.
Mas ela se sentia amada, sim.
Por mais incrível que parecesse, ela era amada por algo. Mesmo que nem ela entendesse o porquê de esse algo gostar dela, ela era amada por algo e isso era um fato. Ela tinha um porquinho-da-índia, Fernando, e ele realmente não tinha medo de chegar perto dela. O que era praticamente inconcebível, porque, quer dizer, se ela fosse Fernando, ela teria muito medo. Porque aquela coisa poderia esmagá-lo a qualquer momento. Mas não, ele ficava perto dela e ela cuidava dele do melhor modo possível. Ele era a única coisa que ela tinha, e ela não queria desperdiçá-lo. Tratá-lo mal. Não, ela tratava-o o melhor impossível.
Havia acabado de chegar da escola, de mais um dia de humilhação – o pior dia da semana pra ela, quinta-feira, dia de educação física – e ainda não havia ido falar com Fernando. Saiu correndo para o quarto, com seus pesados passos maltratando o chão. Abriu a porta, e tomou um susto. A gaiola estava ali; Fernando não. Foi procurar a mãe imediatamente e perguntou-lhe o que havia acontecido com ele.
“Filha, eu gostaria que você pensasse assim: ele era bem velho, e viveu bem mais que um porquinho-da-índia normal. Então...” Interrompeu-a. Quis saber o que ela estava querendo dizer. “O que eu quero dizer é”, disse, “Fernando morreu, filha. Faz umas três horas. Se quiser, podemos ir comprar um novo amanhã mesmo.”. Não conseguiu responder. Virou-se, entrou no quarto e trancou a porta.
Agora ninguém mais a aceitaria. Ninguém mais a amaria. Ninguém mais apreciaria sua companhia e cuidados. Estava sozinha no mundo, e dessa vez, era definitivamente. Chorou sentada na cama por mais de uma hora, quando se virou para o lado. Um espelho. Mais um desses malditos. Viu aquela coisa bestial e vermelha, com feições distorcidas (mais até que o normal) pelo choro. Banhas saindo até de onde ela nem sabia que podia ter banhas. Sentiu-se mais feia que nunca. Feia. Gorda.
Gorda e sozinha.
Então, depois de alguns segundos se olhando, virou-se, destrancou a porta. Precisava comer alguma coisa. Ia comer pra esquecer, e pra ser mais gorda do que sozinha novamente.

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