Sentado no sofá do hospital, ele olhava o rosto repousante da esposa. Com apenas 37 anos, já não haviam mais esperanças de que ela vencesse a doença que já havia a debilitado tanto que ela só passava o tempo deitada naquele hospital nojento, esperando por uma morte que, infelizmente, tardava em chegar. Não é que ele quisesse se ver livre da esposa, mas esse sofrimento dela era desnecessário pra ele, e torturante pra ela. Três vezes por semana (quarta, sábado e domingo), ele ficava lá com ela. No restante, quem ficava era a irmã dela, que estava de férias.
Ela passava o dia inteiro letárgica, devido aos remédios para amenizar sua dor. E dormia ao menos durante 15 horas. Não era um trabalho realmente difícil ficar lá, mas para um acompanhante de hospital, o mais difícil não é ficar, é aquele hospital que se fecha ao seu redor, como um tribunal que lhe acusa de todos os seus crimes contra o paciente. A sensação de que simples enfermeiras cuidam mais dela em uma semana que você jamais cuidou em quase 20 anos não é a mais agradável. Costumava culpar o trabalho. Chefe de finanças duma loja de porte médio/grande. Mas ali, naquele branco infindável do quarto 232, ele sabia. Não havia sido o trabalho, não adiantava mentir pra si mesmo. Bom... Ao menos não sempre. Quando olhava para trás e via aqueles momentos em que, mesmo sem sono, ele ficava deitado até meio-dia no domingo, só pra não sair do quarto e ter que cuidar da filha, ajudar a limpar a sala, preparar o almoço, depois sair e conversar com a mulher, como faziam quando eles tinham seus 18 anos, os dois recém-entrados na faculdade (a mesma faculdade, mas cursos diferentes. Ela fez Letras, queria ser professora de Português. E ele fez Contabilidade, queria ganhar dinheiro. Os dois, felizmente, conseguiram o que queriam.), e passavam o dia todo em algum lugar como uma sorveteria qualquer conversando sobre qualquer coisa que não teria a mínima relevância depois, como dois bons jovens. Mas, depois de uns anos de namoro, as coisas viraram mais passar o dia sem se ver e se encontrar depois pra ter alguma satisfação sexual. E claro, o presente de Dia dos Namorados. Às vezes ela o ligava querendo sair pra bater um papo. Ela, ele e mais uns amigos. Recusava, não estava interessado em sair agora. “Outro dia, sim?”. Estava tão ocupado virando um profissional em sua área, para virar um dia um homem rico e interessante, e talvez quem sabe ficar junto da garota que gostava dele desde antes, como toda boa estrela de qualquer área, que esqueceu que ela existia (esqueceu nas horas irrelevantes das conversas que não teriam importância depois, e que os tornaram amigos, mas continuava sendo namorado dela.) Às vezes via algum coisa que lhe lembrasse dos velhos tempos, e começava a pensar em como estava sendo negligente com ela. Então, eles saíam, falavam por duas horas sobre a vida (Ela conseguiu um emprego de professora de sexta série. Que ótimo.), ele dava um presente a ela, então ele a levava pra sua casa, e, na manhã seguinte, quando acordasse com uma das mãos abraçando o corpo desta, coberto apenas com um lençol, acharia que as coisas continuavam tão normais quanto sempre, e voltaria à grande carreira que um dia teria. Quando conseguiu seu primeiro emprego, como sub-gerente de finanças de uma pequena empresa, contou primeiro pra ela. Não podia estar sempre ali, mas ainda assim gostava muito da namorada. Então, quando foi promovido, três meses depois (as coisas estavam caminhando rápido!), pediu-a em casamento, o que esta aceitou prontamente, com direito a lágrimas e abraços e beijos. Não saíram em lua-de-mel “Porque, claro, ainda não dá pra pagar a lua-de-mel perfeita”. Mas prometeu que, daqui a um tempo, pagaria uma ótima, nada abaixo de Paris. E ela entendeu.
A tal lua-de-mel em Paris realmente veio. Mais ou menos um ano depois. Foi uma semana (“Entenda, eu não posso ficar tanto tempo assim fora do meu trabalho”.) de todo o dinheiro que ele pôde e quis gastar. Uma semana de tudo que ela quisesse fazer a respeito de compras, com direito a sexo uma vez por dia, quando se cansassem de tanto beber champagne e dizerem o quanto a cidade-luz brilhava mais a cada copo, “então vamos pedir mais um e vê-la resplandecer como nunca mais”. Ela voltou grávida, e ele, desesperado. Haviam gastado muito mais do que ele queria e podia (talvez as luzes tenham tornado todo aquele dinheiro mais fácil de gastar), e agora uma criança nasceria, e ele viveria debaixo da ponte de tantas contas a pagar. O dinheiro deu, e nasceu uma garotinha linda (“ela é a cara da mãe, e o cabelo tem o mesmo brilho negro-azulado do pai. Que coisa encantadora.”), que, durante um tempo (uns seis meses?), o tornou o mais próximo que jamais havia sido daqueles dias dos seus 18 anos, tendo contato com a esposa e a filha, como uma boa família feliz de comercial de margarina. Depois, ele arrumou outro emprego (por indicação de um antigo amigo de bebidas – o mesmo que o havia apresentado sua atual esposa.), numa firma bem maior e um salário uns quinhentos reais abaixo do seu atual (“nem tudo é perfeito, e vamos ter que viver sem aquele dinheiro”.). Desde então não mudou mais de emprego, e se empenhou ao máximo para melhorar cada vez mais em seu emprego. Ele era bem rápido, e logo logo havia crescido em duas posições na empresa, e logo logo, sua filha estava na escola, e logo logo, sua esposa estava grávida de novo.
“Sua vida é perfeita”, diziam seus colegas de trabalho. Também achava. Claro, a falsa humildade e a educação o obrigavam a minimizar a coisa toda, mas achava sua vida uma perfeição enorme. Havia agora chegado, em menos de seis meses desde então, a mais uma promoção (a última. Cargo máximo em sua área, na empresa. Um salário invejável, deve-se acrescentar.). E sua filha agora já estava aprendendo as vogais, e sua esposa estava com dificuldades na gravidez. Foi hospitalizada (a primeira de muitas vezes a partir de então) em outubro, com sete meses, por graves dores. Acharam que podia ser o bebê. Não era. Os médicos declararam que, quem sabe, talvez fosse melhor não ter o bebê. Ela poderia morrer, e ele também. Ela preferiu ter (“sempre fui insistente. Não comece a reclamar depois de tantos anos.”). Ainda com sete meses de gestação, sentiu dores mais uma vez, e foi internada novamente. Agora, iria ao hospital uma vez por semana para garantir que estava tudo certo. Sua filha agora havia terminado o primeiro ano da pré-escola. Demitiu um funcionário pela primeira vez (e de certo modo a sensação era boa). Agora tinha pode pra fazer isso. Oito meses de gestação, e sua mulher passou uma semana e cinco dias no hospital (“tudo isso vai valer a pena quando ela nascer, você verá. Ela chuta tanto que às vezes eu queria que ela não chutasse”). Sua filha estava indo muito bem na escola e lia palavras simples com perfeição (“Talvez ela vá gostar de ler tanto quanto você gosta, querida. Talvez ela seja parecida em personalidade também.”).
Foi acordado de seus próprios pensamentos por uma enfermeira que entrou no quarto querendo aplicar um remédio. Aproveitou e saiu. Foi para a área aberta do hospital. E várias pessoas passavam nos corredores, enquanto ele percorria seu caminho. Umas preocupadas, outras andando normalmente. Umas felizes, umas enfaixadas, umas que eram impossíveis de se definir o que elas estava sentindo ou pensando. Umas de cadeira de rodas, uma ou outra chorando num canto. E quando finalmente chegou (era um lugar tão branco quanto o resto do hospital. Com um grande chafariz no meio, e umas poucas plantas perto de árvores. Um lugar totalmente frio que tentava dar uma falsa impressão de calma e tranquilidade, quando, a uns passos de distância, havia pessoas morrendo, chorando, sofrendo em silêncio. Sentou e ignorou isso.), acendeu um cigarro e se lembrou de todas as outras vezes que havia vindo ao hospital. Na primeira, chorou, se desesperou, com a idéia de perder a esposa. Na segunda, ficou apenas sentado, calado. Na segunda e terceira também (e na quarta falou de negócios ao telefones e despediu uma pessoa, quando deveria estar lá com ela, lhe dizia uma vozinha fraca na cabeça.). Depois disso não lembrava de mais nada que havia feito nas últimas vezes. Já havia duas semanas que ela estava lá. E mais ou menos três que ela estava à beira da morte. Os outros dias havia passado em casa, os pais tentando explicar à filha o que estava acontecendo com mamãe e que ela podia não voltar. Que seria melhor pra mamãe que fosse assim. E que mamãe a amava muito e estaria com ela quando fosse. Certas vezes (acabara de acender mais um cigarro), a porta do quarto entreaberta o fez ver a esposa chorando. Mas alguma falta de coragem aparecia nele para ir lá falar com ela. Talvez por não saber o que dizer (ou talvez porque haviam se tornado estranhos um para o outro). A filha recém-nascida não era muito parecida com ela nem com ele. Era mais uma mistura dos dois. A esposa não podia cuidar dela, pois, após o parto delicado, sua saúde havia piorado ainda mais. Não conseguia dar leite, e não tinha tanta energia pra cuidar de uma criança. Tiveram que chamar uma babá. Problemas na empresa fizeram-no impossibilitado de ficar tão junto delas quanto havia ficado no nascimento da primeira filha, mas voltava pra casa todo dia mais cedo (porque havia parado de sair com os amigos pra beber depois do turno depois de finalmente notar um pouco que tinha uma esposa que precisava dele). Quando desmaiou e foi para o hospital, não saiu mais de lá. Tanto ele quanto ela sabiam que era lá o último lugar onde ela ficaria. Que estava fraca demais para conseguir superar.
Quando deu por si, o segundo cigarro já havia acabado. Voltou para o quarto, e ela estava acordando. Sentou-se novamente. “Acho que não passa de hoje,”, disse ela, “e queria que você ficasse aqui. Até... você sabe.”. “Ficarei.”, disse ele. “Obrigada. Significa muito pra mim.”. Ela não olhava para ele enquanto falava, mas para o lençol demasiadamente branco. E ele teve a ligeira impressão de que ela estava tentando não chorar. A impressão foi satisfeita quando ele, olhando também para o lençol, viu algumas gotas caírem. “Sinto muito”, disse ela. “Não gostaria de parecer assim fraca.”. “Você não é fraca”, respondeu ele, “Você aguentou isso tudo como pôde, e eu diria que o fez muito bem.”. “Queria ter podido mais que isso. Queria ver as meninas crescerem.”. Então ele a abraçou. Provavelmente não a abraçava de um modo mais amigo e confortante fazia muitos anos. “De certa forma,”, disse, ainda a abraçando, “você verá.”. “Acho que sim.”, respondeu ela, o abraçando o mais forte que podia (o que, nesse estado, não era muito). “Foram bons momentos, os que nós tivemos. Desde sempre. De vez em quando eu quis que você estivesse ali mais vezes, mas aí eu via o quanto isso era egoísta, que você estava ocupado cuidando de mim. Obrigada por ter feito isso. Eu não queria te dar esse trabalho todo”. De repente, se sentiu mais pesado que nunca. Ela tomara sua negligência como cuidado. E, pela paz da alma da companheira, não queria que ela perdesse essa imagem, embora tal imagem o tivesse feito se sentir um monstro. “Não deu trabalho.”, foi tudo que conseguiu falar. “Eu te amo”, disse ela. “Eu também.”, disse, mais sinceramente que havia dito em vários anos, mesmo que houvesse dito isso sempre, mecanicamente.
Ela realmente não passou daquele dia. Morreu mais ou menos quatro horas depois, dormindo. Quis se desculpar por tudo, mas preferiu que ela tivesse morrido inocente, sem a verdade que ele, naquele momento, via como suja, de si mesmo. Como namorado, como noivo, marido, mas principalmente como amigo. Decidiu não viver pensando num perdão que obviamente nunca viria. Viver em paz. Ao menos havia notado o que tinha feito, mesmo que fosse tarde demais. E, no dia seguinte, ele ia ter que chegar em casa e encarar aquela encantadora cópia de sua esposa, e talvez pudesse recomeçar. Seria melhor. Enquanto as enfermeiras chamavam o pessoal para retirá-la daquele quarto, ele deu-lhe um beijo, e colocou os lençóis por cima dela. Foi para o corredor, e acendeu mais um cigarro.

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