20080518

VIII


Estava na sala da casa dele. Quantas vezes já não havia estado lá? Mas dessa vez, provavelmente, era a última vez. O que ela ia fazer lá depois de ele não estar mais lá? Eles eram melhores amigos há tanto tempo, e ela, de repente, não tinha mais ele ao seu lado. Nessas horas ele estarai lá, não pra falar que ia passar, não para falar que não adiantaria nada ficar triste, mas para ficar parado ao lado dela, imóvel, em silêncio. Exatamente como ela estava fazendo. Por quê? Porque ele sabia que falar algo assim não adiantaria, e que era o melhor deixá-la em silêncio um pouco, mas, que mesmo assim, ela precisaria que ele estivesse lá com ela só por estar e por ele matar toda aquela sensação de vazio que ela tinha naquele momento. Ele saberia. Mas se ele pudesse fazer isso, ele não precisaria, porque ela não estaria ali se sentindo mais vazia do que ela já havia se sentido durante toda a vida. Não é como se não precisasse seguir em frente. O negócio é que "seguir em frente" foi sempre algo que ela havia feito apoiada nele. Não se sentia como se quisesse continuar. Não se isso significava que ela precisaria ir sem ele.

Nunca foi do tipo de pensa coisas como "Por que alguém tão bom como ele?", como estava sendo o pensamento de outras pessoas, mas estava pensando em por que essa falta que parecia estar dentro dela não sumia de uma vez. Sumia com ele, sumia sozinha, não importava, simplesmente sumisse e acabou. A idéia de não poder mais passar tempo com ele doía.
A última conversa deles havia sido a habitual. O engraçado era que, por mais habituais que elas fossem, eram necessárias, e não eram, de forma alguma, repetitivas.
Havia sido a última vez.
Como se nada fosse acontecer depois.
Ele simplesmente disse "Até amanhã." e foi embora. Amanhã. Quando vai chegar amanhã? "Sempre teremos o amanhã", não é? Pois bem, ela queria o amanhã dela que nunca mais ia vir.

Eles se conheciam há uns dez anos e tudo que ela sabia é que, por mais exagerado que isso parecesse, a vida dela havia recomeçado quando ele apareceu porque ele fez parte da vida dela de forma tão intensa que não chegfava a ser mais uma parte, simplesmente. Era uma vida nova a que ela levava. Com um novo ritmo, e liberdade para certas coisas que ela não havia mais ninguém para ter. Para coisas fundamentais, que a faziam se sentir mais livre. Libertar um lado que mudou a vida dela. Esse lado era o que fazia ele ainda meio que estar vivo. Era um lado que viveu por causa dele, e isso não ia acabar porque ele não estava mais lá.
Certos sofrimentos podem ser evitados. Ter uma necessidade profunda de alguém era algo que, obviamente, se enquadrava no que podia ser evitado. Mas essa proximidade pode fazer tão bem que nenhum sofrimento posterior tira a felicidade de, pela primeira vez, se sentir mais viva só porque alguém está ali com você. Isso não diminui a dor, mas a compensa.
Agora, estava deitada no sofá. Não era estar na casa dele que a fazia sentir como se ele ainda pudesse cumprir o "Até amanhã", mas era estar buscando certa força na idéia de que eles já estiveram ali e que o papel dele havia sido cumprido. Até o último momento, ele havia modificado a vida dela de forma única, que a faria seguir de forma totalmente diferente. Mesmo que sem ele. Ela não chorava, mas não era porque ela estava "tentando ser forte".

É porque foi necessário perder e seria muito pior não ter tido.

Se virou e olhou pro relógio. Faziam duas horas que ela estava lá e já eram três da manhã. Virou pro lado e dormiu. O seu amanhã começaria quando acordasse, de forma que ela pudesse fazer valer a pena todas as mudanças que ele havia feito.

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