20080517

VII


Quando pegou a sexta xícara de café, notou que já havia escrito aproximadamente oitenta páginas. Estava sendo produtivo. Sentada na frente de um computador, parecia que nada poderia deixá-la mais compenetrada do que escrever. Escrever, escrever, escrever. Só isso. Aquele ia ser seu terceiro livro naquele ano, e estavam apenas em Julho. Quer dizer, seu terceiro best-seller. Ela não se surpreendia mais com os títulos de best-sellers vindo rápido. Era costumeiro. Ela era considerada uma escritora em seu ápice, com carreira internacional. Seus livros eram cheios de vidas não tão perfeitas assim, mas que no final sempre soavam melhores do que o mundo podia permitir. Não que ela não tivesse uma vida muito assim. Uma escritora de MUITO sucesso. Casada com um diretor de teatro muito reconhecido (e um marido ótimo), e com uma filha absolutamente perfeita. Diziam (porque como um casal consideravelmente na mídia, sempre existem as opiniões populares sobre sua vida, em todos os ângulos. O preço a se pagar.) ter puxado o melhor lado de cada um dos dois(e, de fato, ela parecia um anjinho, com o tosto rosado e fino, e o cabelo castanho avermelhado e os olhos azuis. Ainda que tivesse sete anos, a beleza já era bem visível.), e uma casa enorme num bairro de casas caras. A casa dos sonhos de qualquer um. Ela trabalhava quando queria, tendo considerável liberdade sobre suas atitutes quanto ao horário. Parecia a vida perfeita, e ela, de fato, ouvia isso sempre.
Os livros que ela escrevia sempre contavam histórias de pessoas que depois de certas coisas que aconteciam errado, conheciam alguém que fazia tudo melhorar. O tal amor verdadeiro, como dizem. No final, mesmo com os seus defeitos de enfeite, a vida deles parecia linda e emocionante.
Esse tipo de livro sempre fazia um sucesso incrível.
Ela sabia bem o porquê. As mesmas pessoas que a falavam com tanta felicidade o quanto sua vida era perfeita eram as pessoas que esbanjavam a infelicidade com as próprias, e pareciam se confortar com ler livros que tudo ficava bem no fim. Parecia que isso, quem sabe, fosse acontecer um dia com elas também.
Aquela esperança inútil em coisas surreais era tão popular e vendia tão bem.

Isso de certa forma era bem comum e ela sabia disso, e se sentia até meio culpada pela sua vida, sendo tão perfeita assim, de acordo com os outros, lhe parecer tão tediosa. Odiava seus livros e não os lia de forma alguma. Sua forma de escrever a enojava. Aquele lindo dia com uma filha que sempre estava rindo e um marido que faria de tudo por ela e não cansava de dizer o quando a amavam eram chatos. Ela, às vezes, tinha a impressão que se prendia a tudo isso por medo. Medo de cair na nuvenzinha branca e o chão ser duro demais pra ela. Então, ela ainda vivia sua vida perfeita.
Olhou seu novo romance. Era sobre uma mulher que, com seus 26 anos, recém-saída do Egito, estava agora no Canadá e trabalhava como vendedora de sapatos, e conhecia um banqueiro que parecia fazer o impossível, que era olhar pra alguém como ela.

Talvez fosse o café. O fato é que alguma coisa naquele texto a soou tão... Quer dizer, tão...
Tão...
Tão o quê?
"Bom,", pensou. E não pensou mais nada; selecionou tudo e apertou Backspace. E começou a escrever. Escrever o quê, nem ela sabia. Ela deixava tudo com os dedos, que saíam no teclado sozinhos, e rápidos. Até mais que o normal. E teve a impressão que esse, talvez, não fosse ser um best-seller, mas provavelmente seria o único livro seu que voltaria a ler.

E continuou escrevendo. Sem nem notar que não tinha mais café.

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