20080515

VI


Sentado na frente de um monitor de um notebook em uma cama, tentava relaxar jogando um jogo de Paciência. Não era bem o seu jeito jogar cartas, mas na verdade nada do que andava fazendo mesmo fazia muito sentido então não era algo a se importar. Com um CD do Counting Crows, era um pouco mais simples relaxar. Tudo parecia tão alterado desde que havia voltado para sua cinematográfica família cheia de problemas. No momento, a casa estava num silêncio mortal. Quebrado apenas pelo barulho exterior de umas crianças ali perto brincando de pique-esconde. Já estava escuro, e, fora as crianças, não havia um barulho em toda a rua. Provavelmente eram as filhas do vizinho duas casas pra esquerda, e, como já eram quase nove horas, provavelmente já já elas voltariam pra casa e a rua se prenderia de vez ao silêncio. Parecia tudo tão organizado há um tempo, era o único pensamento que entrava na cabeça dele entre uma música e outra. Nunca foram a família do ano. Verdade. Sua mãe sempre fora meio depressiva. Seu pai, sempre a deixando pior, tanto com atitudes como palavras. (Ou palavras que funcionavam quase que como atitudes.) A irmã, desde os treze anos, andava com um grupo de viciados nas mais diversas drogas, e o pai colocava a culpa no teatro, pois, "coisa assim só poderia dar numa sapatão que anda com um bando de cheirado infeliz". Nunca entendeu bem o ódio que ele tinha da família e inclusive dele também, sempre falando o quanto deixava a vida passar sendo um inútil, e que não viveria um dia fora daquela casa. Talvez, só talvez, o pai estivesse tão insatisfeito quanto eles. E não descontava isso em choro e remédios, como a esposa, ou em drogas e tentativas constantes de suicídio, como a filha. A casa sempre tinha um ar meio pesado (meio?), e durante muito tempo, eles meio que se aturaram. Saiu. Foi estudar. Quando voltou, numas férias, um ano depois, descobriu que a "sapatão viciada" da sua irmã havia tido dois meses antes uma briga com o pai, porque ela havia de fato consumido um bocado de cocaína e foi pro hospital. Pelo que ouviu, várias coisas como "vagabunda", "sapatão filha da puta", e "anormal depressiva" foram ouvidas do lado de fora da casa, até que a dita saiu da casa, bem machucada, pegou o carro e saiu arrancando com ele pela rua. O que foi feito dela, ninguém sabe, por ali. Algo, naquele "instinto de irmão", o dizia que ela estava realmente enfraquecida por causa das depressões e das drogas. A idéia de que a irmã tinha morrido sozinha Deus sabe onde o deixava mal, mas o tal instinto não o indicava outra coisa. Talvez ela já soubesse disso. Havia um olhar estranho no rosto dela quando ela saiu. Era o olhar dela vazio, quando ela sentia que mais nada prestava. Ele conhecia isso. No geral isso vinha seguido de tentativas de suicídio.


A mãe, depois de tanta coisa com o pai, estava cada dia mais e mais cansada. Talvez ela aguentasse aquilo pelo bem de uma família que ela insistia em tentar mostrar pra si (porque para os outros, isso já era bem tarde.) que não havía ruído, quando nem as ruínas restavam mais. mas agora, ela não estava mais cansada do pai. Não havia como estar. Ele, quando voltou, não viu mais o pai lá. Não recebeu uma justificação, como da irmã, mas sim um silêncio que ainda não havia sido quebrado. Quem sabe, ele nunca fosse saber o que houve com ele. Quem sabe, a mãe podia lhe contar. Duvidava. Mas sabe, não importava. A casa sem o pai e a irmã era outro ambiente. Mas não importava justamente por isso. Porque ele tinha plena consciência de que havia crescido num lugar que, quando mais distante, melhor. Agora eram só ele e a mãe. O que era praticamente só ele. Porque ela, como estava cansada, não falava mais muito e costumava se resumir a seu quarto. (Hm, não que ela não fosse meio assim antes. Meio.) A última conversa que eles haviam tido tinha sido em Dezembro (preferiu ficar por lá pra cuidar da mãe.), quando ela lhe perguntou dos estudos. De resto, nada. Era uma casa morta. Como de costume.


Olhou para o relógio, eram 00:32. A mãe tomava o remédio 00:30. Desceu da cama e foi em direção ao quarto dela. Só mais uma rotina.

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