Sentado no escritório, uma lâmpada fraca acesa e papéis na mão. Os lucros da empresa. A empresa ao qual ele chefiava. Outro ótimo mês e a empresa só fazia crescer. Mais e mais cada vez. Lembrou da euforia de primeiro momento quando isso tudo começou. Todos os investimentos, tudo que eletinha feito pela empresa. Tudo muito bem. Uma das maiores seguradoras do estado. Muito bom. Muito bom mesmo. Deu um sorriso fraco. Se sentiu tão ingrato. Quer dizer, a maioria das pessoas já se diria satisfeita em ter um pouco daquela quantia astonômica que aparecia no lucro (já descontados os gastos) que ele tivera e... Não parecia isso tudo. Não o dinheiro, mas a felicidade.
Faltava algo. O que era? Ele tinha uma família, uma família dos sonhos. Uma filha que era linda, que tinha um namorado com uma boa família, que estudava na mesma faculdade que ela e ia ser médico, e ela ia ser uma engenheira, dois filhos gêmeos que eram, apesar de hiperativos, bem obedientes, e bastante apegados à família, e claro, ele havia escolhido a esposa perfeita. A que cuidava de tudo em casa sorrindo. A que não se importava com ficar com as crianças enquanto ele ia trabalhar. A que não ficava reclamando. A que sempre estava ali, pronta ao que fosse. E quando haviam problemas, pronta para tentar consolá-lo. A que cuidava dele todo dia com a energia do primeiro. Uma casa absolutamente perfeita, linda, num lugar cobiçado. A rotina não tinha surpresas. Era tudo sistemático. Ele acordava, se arrumava para o trabalho (com a roupa já separada pela empregada, sem uma dobra fora do lugar.), tomava o café que já estava posto pela mulher. A beijava, e ia para o trabalho. Quando voltava, aproximadamente onze e meia da noite, sua mulher colocava-lhe o jantar, e depois disso, ele ia tomar um banho e depois eles viam um pouco de tevê antes de se deitarem. Caso estivesse um pouco estressado, sua mulher sempre cuidava disso. Ela parecia saber quando ele precisava dela. E saber sempre para quê. Para sua quebra de rotina, tinha sua secretária, Rosa, que sempre almoçava com ele e eles iam juntos para um motel caro meio longe dali. Nunca ninguém notava. Os que notavam, se os havia, não falavam nada. Era a parte "interessante" do dia. Mais interessante pra ela do que pra ele, já que também acabou virando uma coisa sistematizada. Tudo corria muito bem. Perfeitamente bem. Mas o que faltava? O que poderia ser essa maldita coisa que fazia parecer que tudo era tão vago? Simples demais. Sem graça demais. Nulo demais. Chato demais.
Não era nada de importante.
Nada daquilo?
Sua esposa? Seus filhos? Sua empresa? A casa? A secretária? O respeito? O dinheiro? A maldita vida perfeita do qual todo dia acabavam falando para ele? Não, nada disso era bom. Não era o que ele precisava. Não era TUDO que ele precisava. Girou na cadeira. Não haiva mais ninguém trabalhando, só os faxineiros, que não iam falar nada. Só limpariam a sala dele amanhã de manhã, então, sem temer escândalos, jogou um peso de papel contra a janela que ficava atrás de sua mesa. Ele estilhaçou boa parte do vidro e foi em direção à rua, tão pequena, dali de cima. Nem parecia o centro. Precisava achar a resposta. Precisava achar uma forma de ter tudo que era necessário. Levantou-se de um impulso da cadeira e foi andar pelo escritório. Foi até uma gaveta na estante. Papéis, papéis, canetas, lembretes, uma gravata (o que isso está fazendo aqui?), ah. Uma caixa. Abriu-a. Um pote. Calmantes. Pegou-os e foi até o bebedouro da sua sala. Tomou cinco de uma vez, não queria ficar muito tempo de pé. Foi até sua cadeira de novo. Sentou-se e virou pra janela. Estava estressado. Não queria, como das outras vezes, ir pra sua casa, jantar, tomar um banho e transar com a sua tal mulher perfeita. Ok, ela não era tão perfeita assim. Ele sabia que ela o traía com um maldito vendedor que tinha uma loja ao lado e que os gêmeoszinhos lá que não paravam de pular por aí, gritar, quebrar coisas, eram dele. Fodam-se eles. Não que eles já não o fizessem, haha. Deu uma risada meio irônica, alta demais pra parecer normal. Sentiu o vento que vinha da parte quebrada da janela. Que vento maravilhoso. Parecia bom demais, aquele vento. Frio. Maravilha. Nem se preocupou em colocar o copo na mesa. Largou-o, ele caiu no chão. Não estava mais nem aí. Adormeceu nem ao menos notar.

Um comentário:
Nhow. fofo/
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