Era uma sala com a parede num tom branco meio azulado, o chão de tacos de madeira (um ou outro solto, pela falta de reformas), uma única janela grande de vidro com insufilm que estava sempre fechada (ela gostava de observar o mundo sem ser observada.), e muitas telas. Telas, tinta, chão sujo de tinta, pincéis. Marcas da única coisa que a prendia a atenção. A vida dela foi concentrada naquelas quatro paredes, já que vivia naquele mesmo apartamento desde que havia nascido, há exatamente 29 anos atrás. Era bom viver lá. Nunca chegou a ter muito contato com os vizinhos, porque nunca foi chegada a fazer contato com todos que visse por aí. Mas era um lugar calmo. E desde que ela tivesse a sua sala, nem precisaria ser um lugar tão calmo assim. A calma parecia vir quando ela mexia a tinta, quando molhava o pincel nela, quando ele tocava a tela e fazia coisas não planejadas, mas que vinham de dentro dela. Ela gostava de pintar com azul. Não é bem que ela gostasse. É que a mão dela se direcionava sozinha para o azul. E ela não lutava contra isso, ela só pegava o azul e é isso aí. As pinturas com bastante azul eram sempre suas melhores. Por sua vez, as piores, eram as com amarelo. Amarelo não era bem a sua cor, apesar de ser loira. Amarelo pra ela transmitia uma energia que ela não tinha. Não é que ela fosse infeliz. O tipo de felicidade que ela tinha era apenas diferente do tipo comum de felicidade. A felicidade dela era pegar uma garrafa de água mineral, vestir uma roupa confortável, e ir pra sua sala. Não sentia toda aquela alegria pra sair com amigos. A alegria daquela coisa de estar junto, claro, como qualquer outra pessoa, sempre poderia existir. Mas a alegria de estar pintando era diferente. Era se como a tinta expressasse sua natureza. Sua alma. Coisas que ela não entendia. Que ela não queria entender. Ela só queria sentir. Seus amigos passaram o dia perguntando a ela por que ela não queria fazer nada no seu próprio aniversário.
Na verdade, ela já tinha tudo planejado, mas não envolvia eles.
Havia comprado três garrafas bem grandes de água. Uma tela grande, também. Todas as suas tintas posicionadas nos lugares que preferiu. Muito azul. Todas as suas tonalidades de azul. E principalmente, o azul DELA. Era um tom meio escuro de azul. Meio acinzentado. Mas não era triste. Era um tom muito bonito, na verdade. 31 de Dezembro. Ano-novo e seu aniversário. Eram exatamente 17:32. Tudo preparado? Que começasse a festa.
Jogou tinta amarela primeiro. Poderia parecer estranho a princípio. Amarelo? No seu aniversário? Não, não estaria certo. Mas ela queria usá-lo. Queria cobri-lo com azul. Seria quase como demonstrar a superioridade da "alma" dela sobre as coisas que ela não aceitava. Se sentiu bem fazendo isso. Em pouco tempo, tinha uma tela toda amarela. Agora eram 17:48. Branco. É, branco. Colocou branco em algumas partes. Sempre antes do azul, acabava colocando um pouco de branco. Era como se, sendo a segunda cor favorita dela, abrisse espaço pro azul. Mas ainda não era hora do azul. Tinha todo um cuidado especial com o branco, o que fez demorar bem mais pra aplicá-lo, embora fosse menos branco. 18:20. Ela não olhava pro relógio. A única coisa pro qual ela olhava era a tela. A tinta. A janela e a água, eventualmente. Quando entrava naquela sala era como se uma nova pessoa surgisse. Um lado bem mais real dela. Não que ela fosse falsa fora dali, mas ela não podia ser inteiramente ela. Já na sala, ela se integrava a tudo ali e se sentia completa. Todos os seus sentimentos achavam uma válvula de escape através de pincéis. Apesar de toda aquela felicidade, ela não sorria muito na sala. Sorria bastante fora dela, mas lá, ela não precisava demonstrar quando estivesse alegre. Ninguém precisava ver essa alegria. A concentração impecável já era a demonstração da alegria. Parou pra beber bastante água e decidiu ir pra janela. Tanto clima de Ano-novo. Ainda haviam luzes de natal em várias casas, pessoas vestidas de branco na rua, a praia, lotada. Essa era uma das graças de se morar perto do mar carioca. Muita gente. Muita história. Não gostava de proximidade DEMAIS com essa gente, mas gostava de vê-los e tentar imaginar suas vidas. Era tão terapêutico. Contou mais de 160 pessoas com camisas brancas e se cansou de contar. Olhou pra si mesma e riu. Estava com jeans e uma camisa preta.
20:17.
Voltou pras suas tintas e, instintivamente, pegou o azul. O seu azul. "Não. Agora não.", pensou ela. Pegou um azul BEM claro, que quase se misturava com branco, e decidiu misturá-lo com verde. Verde vivo. Deu num tom bem claro de verde. Verde-bebê. Colocou-o em cima de algumas partes, perto do branco. Deu um toque bem bonitinho. Mas ainda havia muito amarelo. Isso ia ser resolvido logo. 20:28. Azul piscina. Deu umas pinceladas na tinta e a jogou de modo aleatório do quadro. Queria algo bem solto pra começar. 20:35. Foi ao banheiro e depois ficou um tempo vendo o quadro. Iria colocar o SEU azul agora. Ficou um longo tempo decidindo o pincel. Tudo estava tão bom até agora, nada poderia estragar isso. Tomou mais um pouco de água. Pegou o seu mais velho, que ela tinha há oito anos. Cheio de manchas no cabo, este estava descascado, mas as cerdas ainda estavam impecáveis. Ok, talvez meio machadas por tintas um pouco mais fortes, mas ainda estava macio e pintava muito bem. Ela o guardava como a coisa mais importante e não o usava à toa. 22:10. Suspirou. Abriu o pote com O azul. O pincel era bem delicado e fino, então ia ser um trabalho delicado e fino, também. Agora mal se via o amarelo. Só umas duas ou três manchas remanescentes. Passou o pincel pensando em tudo que estava acontecendo. Em tudo que seu dia a privava de pensar. Nem via a direção que ele ia. Ele só... Ia. Agora o barulho dos fogos era constante. O que eles festejavam? Ela mal lembrava. Tinha sua própria festa a pensar. Era como se o stress de um ano estivesse sumindo pouco a pouco. Secando com o azul. Era tão bom. Era uma sensação tão limpa. Era gritar os problemas sem ao menos abrir a boca. E depois que esses problemas eram gritados, eles sumiam. Eram momentos que não tinham tempo. Não eram longos. Não eram curtos. Só eram.
Então, do nada, largou o pincel. É. Tinha acabado. Sorriu, quando olhou pro quadro. Guardou as tintas. Bebeu os últimos goles da segunda garrafa de água e usou a terceira para limpar os pincéis. Colocou num canto a tela e a olhou mais uma vez. Perfeito. Então, de repente, fogos. Muitos fogos. Olhou o relógio. Meia-noite. Deitou-se no chão, sorrindo mais.
Fim do aniversário perfeito.
20080423
IV
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2 comentários:
eu REALMENTE amo seus textos.
[2] pra sara.
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